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História

Formação da América vista pela literatura

Livro do historiador Rafael Ruiz analisa a formação do continente a partir de 11 clássicos

“A conquista e a colonização  da América tiveram também como resultado, talvez não esperado, um requestionamento sobre todas as bases em que se assentava a vida social, cultural, política e moral do Estado.” - Rafael Ruiz, historiador | Arquivo pessoal
“A conquista e a colonização da América tiveram também como resultado, talvez não esperado, um requestionamento sobre todas as bases em que se assentava a vida social, cultural, política e moral do Estado.” - Rafael Ruiz, historiador (Foto: Arquivo pessoal)
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O historiador espanhol, radicado em São Paulo, Rafael Ruiz resolveu, em O Espelho da América – De Thomas More a Jorge Luis Borges, livro recém-publicado pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), discutir aspectos fundamentais da história do continente americano nos séculos 17 e 18 por meio da literatura.

Essa opção, por mais que resulte em uma obra envolvente e saborosa para o leitor, desafia, em grande medida, o que se entende como o método tradicional de se pesquisar e escrever academicamente sobre História.

Em entrevista à Gazeta do Po­­vo, concedida por telefone, de São Paulo, Ruiz diz que, para os estudiosos da área, "a literatura seria uma fonte menos séria, por lidar com tramas ficcionais". Enquanto que, para os mais ortodoxos, apenas seria possível trabalhar com "fatos acontecidos, comprovados a partir de documentos".

Em seu livro, Ruiz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) se debruça sobre 11 obras clássicas da literatura universal, não necessariamente escritas por autores das Américas, para estabelecer uma discussão a respeito dos processos históricos e da dinâmica de construção das sociedades no continente.

Política

Na primeira parte, intitulada "Formas de Narrar", o autor vai buscar no argentino Jorge Luis Borges e seu Traduciones de las 1001 Noches e em Palomar, livro do italiano Italo Calvino, substratos para discutir os limites e condicionalismos do historiador e de seu texto, a partir de uma análise dos conceitos de história, perspectiva e método.

Já no segundo capítulo, "Projetos Políticos", Ruiz recorre a quatro obras dos séculos 16 e 17, todas essenciais na discussão do tema: O Príncipe, do italiano Ma­­quiavel, Utopia, do inglês Thomas More, Dom Quixote de la Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes, e Robinson Crusoé, do também britânico Daniel Defoe. Nessa parte, e remetendo-se a essas obras, o históriador discute conceitos que marcaram a chamada modernidade: ética e política; praxe e prudência; utopia e realidade; colonização e tolerância.

"Em Robinson Crusoé, o protagonista europeu dá ao nativo o nome Sexta-feira sem consultá-lo ou querer saber como se chama. Mas também emprega métodos totalmente inadequados de cultivo em uma terra que ele desconhece", diz Ruiz.

Existência

O texto teatral Hamlet, de William Shkespeare, e o romance alegórico As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, servem de base para a terceira parte de O Espelho da América, que leva o título de "Modernidade e Modernidades". "A conquista e a colonização da América tiveram também como resultado, talvez não esperado, um requestionamento sobre todas as bases em que se assentava a vida social, cultural, política e moral do Estado", escreve Ruiz na introdução do livro. Para ele, a Europa teria entrado em crise diante do Novo Mundo, com outros seres, costumes e formas de organização.

Presente nas obras dos dois autores ingleses, torna-se central a questão de quem – ou o quê – é o homem e a que serve, e como se configuram o Estado e a vida polítca. "O personagem Hamlet, por exemplo, questiona o tempo todo o livre-arbítrio, o destino que parece aprosioná-lo", explica Ruiz, para quem hoje, na chamada pós-modernidade, a questão "Para que serve minha existência?" nunca esteve tão atual.

Em "Identidade e Independências Americanas", quarto capítulo do livro, Ruiz discute conceitos como independência, identidade nacional e Estado-Nação, fazendo uso de O General e Seu Labirinto, no qual o colombiano Gabriel García Márquez descreve os últimos dias de Simón Bolívar, venezuelano, visto na América Latina como "herói" e "visionário", "revolucionário". Outra obra discutida é Concerto Barroco, do cubano Alejo Carpentier.

Fecha o livro de Ruiz "Ofício de Historiador", no qual o autor retoma o tema do capítulo incial e também revisita a obra de Borges, desta vez o conto "Pierre Menard, Autor del Quijote".

Para Ruiz, a História, tratada por muitos como ciência, graças a seus rigores metodológicos, é, sobretudo, uma arte narrativa, que se reinventa, se reescreve. E olhar para o passado diz tanto sobre ele quanto sobre o tempo presente, de onde se fala.

ServiçoO Espelho da América – De Thomas More a Jorge Luis Borges, de Rafael Ruiz. Editora UFSC, 206 páginas, R$ 31. História.

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