
Brasília - Realidade e fantasia. Documentário e ficção. A dicotomia integra as discussões de dois longa-metragens aparentemente bem diversos que estiveram na mostra competitiva do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, encerrada na noite de ontem: o filme de "ficção" Filmefobia, de Kiko Goifman, e o "documentário" Tudo Isto Me Parece um Sonho, do baiano Geraldo Sarno.
"Esta é uma edição que aponta para a pós-modernidade, que seria esta possibilidade de misturar tempos e gêneros. Os filmes que estão aqui trazem esta inquietação", disse o diretor de Siri-Ará, o cearense Rosemberg Cariry, um filme alegórico sobre a o retorno do mestiço Cioran ao sertão nordestino que, mesmo fictício, é uma espécie de documento sobre a cultura popular daquela região brasileira.
Incertos em seu gênero, mas pouco preocupados em se definir, os dois filmes propõem novas formas de pensar o cinema que questionam essas subdivisões. Filmefobia, o preferido da imprensa especializada presente no festival, acompanha a produção de uma equipe, liderada pelo crítico de cinema e roteirista Jean-Claude Bernadet, que realiza um documentário sobre fobias humanas. Atores fóbicos e não fóbicos, não-atores fóbicos e o próprio Kiko Goifman se submetem a "sessões de tortura" em que se expõem ao objeto de seus medos: de sangue, de cobra e de injeção, de penetração, de botão, de borboleta. Para o personagem Jean-Claude, a única imagem verdadeira é a do fóbico diante da sua fobia.
Semelhanças com o Big Brother Brasil, exibido pela Rede Globo, não são mera coincidência. Bernadet, que participou do processo de feitura do filme, roteirizado por Goifman e Hilton Lacerda, explica que a construção da narrativa contemporânea é baseada na espetacularização da pessoa. Enquanto as cenas de fobia são mostradas, Jean-Claude, o realizador do documentário dentro do filme, discute com sua equipe questões inerentes ao processo de filmagem como ética, superexposição e as fronteiras entre a realidade e a ficção.
Se há elementos documentais, o filme, no entanto, é ficcional em sua essência. "Se este filme fosse um documentário, eu e Jean-Claude (Bernardet) seríamos presos na saída", brincou Kiko Goifman, pouco antes da exibição.
Filmefobia assemelha-se, em sua discussão, ao documentário de Sarno. Sem imagens de arquivo suficientes para produzir um documentário sobre o general Lima e Abreu, pernambucano que participou, ao lado de Simon Bolívar, das batalhas pela independência da Colômbia, Venezuela e Peru, Geraldo Sarno entrelaça cenas fictícias da vida do militar à busca da equipe por material para a construção do filme.
O cineasta se expõe e à sua equipe com honestidade em sua busca por um modo de fazer um documentário em formato não-convencional e mais condizente com a produção cinematográfica latino-americana sobre um personagem pouco conhecido pelos brasileiros, mas que teve participação decisiva na luta pela independência daqueles países.
Há diversas camadas que se sobrepõem, relacionando presente, passado e traçando até mesmo um prognóstico para os tempos futuros. As seqüências mais interessantes são, sem dúvida, aquelas em que Sarno e dois pesquisadores Vamireh Chacon, da Universidade de Brasília, e o venezuelano Pedro Sosa andam por espaços públicos nas cidades visitadas de Salvador, Recife e Caracas, conversando sobre a trajetória do general, enquanto a câmera revela o cotidiano ao redor propondo, dessa forma, relações entre América Latina da época do general Lima e Abreu e a contemporânea.
A realidade pernambucana, terra natal do oficial, também é revelada de maneira estimulante, como forma de confrontar o passado e presente. Há um momento em que Geraldo e sua equipe filmam um corte de cana para mostrar as dificuldades da vida dos trabalhadores. O formato de documentário tradicional é interrompido pelo próprio diretor, que decide cortar a cana ele mesmo, para ver como é. Enquanto isso acontece de um modo, digamos, desajeitado, uma menina narra em off, ao lado do cinegrafista: "Desse jeito ele nunca vai conseguir alcançar um salário".
A repórter viajou a convite da organização do festival.



