
Em 20 de janeiro deste ano o Presídio do Ahú, em Curitiba, recebeu uma nova função. O local ainda funciona como centro de triagem, mas não abriga presos em suas celas desde 2006, quando foi desativado. Hoje, é peça fundamental para as gravações de 400contra1 Uma História Sobre o Comando Vermelho. Em visita ao set de filmagens, a Gazeta do Povo Online pôde conferir o que há por trás das paredes desgastadas pelo tempo e pela história e conhecer um pouco mais sobre o início do crime organizado no Brasil.
O ambiente frio, sombrio, que ainda carrega dor e tristeza é o cenário ideal para compor o Presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro dos anos 70 local onde se passa parte da trama. Além das semelhanças na estrutura e data de construção, o silêncio do bairro e o fato de ser uma penitenciária de grande porte desativada foram essenciais para a escolha do Presídio do Ahú para as filmagens.
Baseado no livro 400contra1, de William da Silva Lima um dos fundadores do Comando Vermelho -, o filme fala sobre o início do crime organizado no Brasil, a história de solidariedade entre os presos e as leis criadas por eles dentro da prisão, onde não se podia roubar, matar ou abusar física ou sexualmente.
William, Neco e Cavanha - interpretados por Daniel de Oliveira, Rodrigo Brassoloto e Fabrício Boliveira, respectivamente são os novos habitantes das 12 celas produzidas para a gravação do filme, na 6ª Galeria do Presídio do Ahú. "Decorados" com fotos de mulheres nuas, os cubículos apresentam muita sujeira e condições mínimas de higiene.
Para a produção do filme, foi necessária a construção de uma nova cela solitária, pois não foi possível gravar nas originais, em razão da má iluminação, falta de ventilação, ratos e mau cheiro. Também foi construído, dento do presídio, um apartamento onde foi gravada a cena que dá nome ao filme, na qual 400 policiais armados tentam capturar um único homem, Zé Bigode, e para isso, levam mais de 12 horas. Nessa cena, um sofá e uma parede explodem e 350 tiros disparam pelo cômodo. Antes da filmagem são feitos testes de impacto com armas de paintball para escolher que tipo de bala será usada de poeira ou zircone e certificar-se que o efeito será o desejado e ninguém sairá ferido.
Além das balas cenográficas, há uma série de outros materiais feitos especialmente para as gravações. São facas que se contraem, tijolos fictícios, uma imitação de concreto que pode atingir uma pessoa sem machucar e sangue artificial à base de glucose (açúcar que existe em diferentes tipos de alimentos), que pode até ser ingerido em caso de cenas de ferimentos na boca.
O filme conta com uma equipe reduzida, cerca de 50 pessoas, segundo o diretor Caco Souza, e 70 figurantes, que incluem policiais reais e internos em regime semiaberto da Colônia Penal Agrícola de Piraquara. A participação dessas pessoas dá um toque ainda maior de realidade ao filme e é uma experiência única para os detentos. "Foi uma experiência fantástica! Eu vivia num mundo pequeno, aprendi que há mais vida do que eu pensava. Aprendi a confiar mais nas pessoas, a ver sinceridade nelas", comenta Frank Roberto Abitante, ex-interno da Colônia Penal, que foi solto na quinta-feira (12).
Para compreender o dia-a-dia da prisão, Souza contou com a colaboração de Paulo César Chaves, o PC, um dos fundadores do Comando Vermelho que cumpriu 30 anos de pena. Ele compartilhou experiências e ajudou a equipe a entender melhor como os detentos se portavam na prisão, a relação entre internos e carcereiros e os códigos para a comunicação dos presos dentro da cadeia. Ainda para auxiliar no linguajar, foi utilizado um dicionário de gírias dos anos 70.
O primeiro longa-metragem de Caco Souza é gravado com apenas uma câmera, de 4K de definição, que é observadora e participa como um personagem, o que torna o filme mais realista. No próprio presídio foi montada uma pequena ilha de edição, na qual os atores, produtores e diretor assistem ao material pré-editado e, com isso, têm a possibilidade de modificar eventuais erros. As cenas chegam a ser pré-editadas em apenas 12 horas após as filmagens.
O orçamento total de 400contra1 é de R$ 4,8 milhões e 60% das cenas são gravadas dentro do Presídio do Ahú. O restante será dividido entre Rio de Janeiro, Ilha Grande e uma pequena parte de externas em Curitiba, como o assalto a banco acompanhado pela Gazeta do Povo.
A Cena
A tarde nublada e fria do último dia 14 no centro de Curitiba deu trabalho aos atores e figurantes que precisavam convencer que o assalto a banco se passava no Rio de Janeiro, e em pleno verão. No prédio do INSS, na Rua Cândido Lopes, ocorreu o roubo e a fuga da quadrilha comandada por Willian da Silva Lima.
Uma Kombi, um Galaxie e um Opala ajudaram a compor visual "anos 70" na rua fechada e apinhada de curiosos, dentre os quais foram chamados os figurantes que se caracterizaram no próprio local, dentro de uma van.
Teresa, personagem de Daniela Escobar, espera armada, na frente do banco, para auxiliar na escapada, enquanto os bandidos saqueiam o local. A cena rápida precisou de dez gravações e mais de dez ensaios para chegar à perfeição desejada pelo diretor. Foi filmada de vários ângulos, focada em um personagem diferente cada vez que era repetida.
Em todo momento há descontração por parte dos atores, que não se mostram cansados ou entediados. As risadas e piadas são constantes e o clima nunca fica tenso.
400contra1 Uma História Sobre o Comando Vermelho tem previsão de estreia no País no fim de 2009 ou início de 2010. Nesta terça-feira, você confere entrevistas com os atores Daniel de Oliveira e Daniela Escobar.












