
Objetos Cortantes é o tipo de livro que prende a atenção já na primeira linha (ao menos prendeu a minha): “Meu suéter era novo, vermelho berrante e feio”. E se mantém interessante até o desfecho, que me surpreendeu muito.
Trata-se do primeiro romance da americana Gillian Flynn, mesma autora de Garota Exemplar – adaptado para o cinema por David Fincher.
A narrativa demonstra muita segurança para uma estreante e funciona, principalmente, por causa da personagem principal, Camille Preaker, repórter que trabalha num jornal sem muito prestígio em Chicago, cobrindo pequenas histórias um tanto entediantes e mornas.
Seu chefe, Frank Curry, a manda cobrir uma história com potencial para atrair leitores.
A reportagem é sobre uma menina desaparecida e outra assassinada, ambas na faixa dos 10 anos. Os crimes ocorreram na cidade natal da jornalista: Wind Gap, no Missouri.
Camille saiu há pouco tempo de um hospital psiquiátrico – recebeu tratamento por se automutilar – e voltou relutante para Wind Gap.
O maior desafio, se ela resolvesse aceitar a pauta, seria o de reaprender a conviver com a mãe, o padrasto e a meia-irmã, que ela mal conhece.
A viagem ao Missouri traz de volta os traumas da infância e da adolescência que ela tenta esquecer. O convívio com a mãe é um dos maiores pesadelos que Camille precisa enfrentar, caso queira investigar o crime sobre o qual tem de escrever.
Aos poucos, ela começa a se identificar com as vítimas e vai ficando curiosa em relação à irmã: a menina tem 13 anos é uma menina mimada, do tipo rainha do baile, e ao mesmo tempo parece doce e ingênua.
O assunto da automutilação é muito frequente no texto de Gillian, mas ela o aborda de forma sutil – que não entrega os detalhes muito rápido. Camille fala sobre “sentir na pele” os momentos de raiva e angústia.
A autora consegue expor, pouco a pouco, o que há de obscuro nos personagens da história, sempre dando ao leitor algo em que pensar. E é praticamente impossível se afeiçoar aos coadjuvantes, que não inspiram confiança.
Problemática, Camille é um personagem que intriga e cativa fácil o leitor. O medo de que algo de ruim aconteça com ela é um sentimento frequente ao longo da leitura. Objetos Cortantes é tão perturbador quanto relembrar traumas do passado.



