
O público norte-americano costuma adotar o comportamento de avestruzes quando o país enfrenta crises políticas e econômicas, ou entra em guerras. Prefere enfiar a cabeça na areia do escapismo. Tanto que em períodos como a Grande Depressão, na década de 30, ou a Segunda Guerra Mundial, nos anos 40, gêneros como o musical e a comédia quebravam recordes de bilheteria e lotavam os cinemas. Esse comportamento não mudou. Desde os ataques do 11 de Setembro, várias tentativas foram feitas de discutir temas como a política externa dos EUA e as guerras no Iraque e no Afeganistão. Todas fracassaram. Até a consagração (pela crítica) de Guerra ao Terror (veja trailer e fotos).
Indicado a nove Oscars (veja quadro), o drama bélico de Kathryn Bigelow não foi um grande sucesso ao ser lançado no primeiro semestre de 2009. Havia sido exibido no Festival de Veneza do ano anterior e, apesar das unânimes resenhas positivas, teve o mesmo fim de outros longas que ousaram discutir a Guerra do Iraque, como No Vale das Sombras, de Paul Haggis. Teve breve vida útil nos cinemas, acumulando uma bilheteria tímida de US$ 16 milhões. Esse desempenho talvez justifique o fato de Guerra ao Terror ter sido lançado direto em DVD no Brasil.
Laureado pelas associações de críticos nos EUA e, agora, pela Academia de Hollywood, o magistral longa-metragem de Kathryn Bigelow chega hoje às telas do Brasil, onde merece ser visto até mesmo por quem já teve a chance de vê-lo em casa.
Tenso, vigoroso e envolvente da primeira à última cena, Guerra ao Terror não discute a política externa americana ou mesmo se a intervenção militar no Iraque é justa ou não. Prefere aos moldes de clássicos do gênero como Johnny Vai à Guerra, Apocalipse Now e Nascido para Matar desvelar o absurdo de todo e qualquer conflito bélico. Para isso, centra seu foco em um esquadrão antibombas dos EUA.
Na primeira e eletrizante sequência, vê-se um oficial (Guy Pearce), especialista em desarmar artefatos explosivos, enfrentando uma missão da qual não sairá ileso. Para substitui-lo, entrará em cena o intrépido oficial William James (o novato Jeremy Renner, indicado ao Oscar de melhor ator). Sua postura entre a arrogância e a psicopatia tira seus companheiros do sério: ele parece obter prazer em estar no limite entre a vida e morte, colocando todos em risco.
Sem cair no panfletário ou ceder à tentação de apontar mocinhos e bandidos, Kathryn Bigelow, escorada pelo excelente roteiro de Mark Boal, perscruta a subjetividade dos seus personagens. Sobretudo o complexo e atribulado relacionamento entre William e os dois outros soldados da mesma unidade, o rígido JT (Anthony Mackie) e o frágil Owen (Brian Geraghty). Investe nas particularidades desse microcosmo, dissecando-o em detalhes, para refletir sobre um tema universal e atemporal. Fez o melhor filme americano de 2009. GGGGG




