
O interior do Paraná chega à capital ou dela se despede de ônibus, nos fundos da Rodoferroviária, na região central. Toma um pingado e aguarda madrugada adentro, remoendo a vida de "cidade grande". Ou então dali se pincha, na imaginação, em direção ao Passeio Público, às luzes e aos prédios, contando os miúdos. "Eu não vou fugir", matuta. Pega a bagagem, sob o olhar vigilante das vigas brutas e cinzas cor do céu, e sente-se um Mazzaropi Incriminado, "Um brasileiro que perdeu mais uma chance / É enganado tanto quanto ele só". Os versos têm cheiro de roça e barulho de metrópole.
A música parece que já permeava aqueles corredores e passarelas antes mesmo da banda Charme Chulo gravar um videoclipe na rodoviária de Curitiba, lançado no início do ano passado. A canção abre o disco de estreia, homônimo, de 2006. Depois de 12 faixas em 43 minutos, um disco ao vivo com duas inéditas, outro videoclipe, reconhecimento do famoso produtor Miranda e mais de cem shows pelo circuito independente, o verão de 2009 ainda tem cheiro de mares antes não navegados para esses caipiras (que aprenderam a navegar).
O lançamento do segundo álbum desta banda paranaense de rock está programado para o fim do primeiro semestre e deve se chamar Nova Onda Caipira, pelo selo Volume Um. Os shows (sempre um ponto alto do quarteto) recomeçaram em fevereiro, já com amostras das novas canções. Foram duas apresentações na capital incluindo performance vigorosa no Wonka lotado - e uma no litoral.
As gravações do novo disco iniciaram no fim de 2008, no respeitável estúdio Toca do Bandido (do falecido produtor Tom Capone), no Rio de Janeiro. Em janeiro a piazada do Água Verde rumou para estúdio em São Paulo. A araucária, em frente ao prédio onde fica o estúdio/escritório/apartamento, na Rua D. Pedro I, parece desempenhar ora o papel de âncora, ora de vela...
Isso porque o descobrimento do Brasil, para o Charme Chulo, passa necessariamente pelo interior do Paraná, de Minas Gerais e São Paulo. Foi nesses estados que encontraram público e condições para apresentação, mas também já se mandaram de carro até Cuiabá. "O interior tem uma unidade. As pessoas estão ligadas em torno dessa cultura (da viola), elas entendem mais a banda, fica mais fácil", revela o vocalista Igor Filus, de 28 anos. "Minha família do norte do Paraná tem uma ligação muito forte com Minas e São Paulo. O pessoal de Maringá inclusive torce para o Corinthians, para o São Paulo, não para o Coxa (Coritiba)".
Ciente de que não dá para tocar em Jaú achando que se está em Chicago, o guitarrista, violeiro e também maringaense Leandro Delmonico, 24, reconhece progresso da banda no cenário independente, mas sem vislumbre. "É um número bom de shows para uma banda que não toca cover, por exemplo, e está a fim de crescer, que não ganha dinheiro suficiente para viver de música". Além do mais, "o cara que faz evento independente no Brasil se ferra tanto quanto as bandas", adverte o fã de rock inglês. Igor espia o oeste paranaense e a lista na parede com mais de 20 festivais independentes espalhados pelo país e anota: "Se a gente fizer três daqueles ali já é um mérito".
"Ver daqui nos parece uma grande explosão pelo céu", como diz uma canção do disco antigo, mas são quatro piás que sabem dos fatos e não fogem de uma intriga. Os curitibanos Rony Jimenez, 31, e Peterson Rosário, 27, seguram esse trem ao som de radinho AM de pilha, respectivamente na bateria e no baixo ancoram no rocknroll uma banda que tem por "insight" o Tião Carreiro que aprenderam a ouvir com os pais. "É engraçado, a gente é uma banda de rock, mas se for comparar, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro, por exemplo, era exatamente esse o circuito dos caras", identifica Leandro.
O desafio do novo disco é fazer alguma coisa paranaense dentro do rock, como sinalizou o primeiro trabalho onde estão muito bem servidos. "Piada Cruel" é a própria "A Armadilha" de Dalton Trevisan e sua Curitiba Perdida. "Polaca Azeda", do primeiro EP da banda, já é um clássico das cercanias. "Barretos", "Solito a Reinar" e "Amor de Boteco" põem o povo para dançar - "Eu queria ser tão especial, mas assim não dá pra ser", lamenta esta última.
"As músicas vão ficar mais resolvidas sem perder a essência da banda. Deixar mais claro o rock caipira que a gente se propõe a fazer", promete Igor, em tom grave oposto aos falsetes que perfuram refrões pueris canções afora. E assim vamos deixando o rock dos meninos nos chocar, da mesma forma como ainda se espantam com a fã em Umuarama que sabia cantar todas as músicas. Não parecem assustados esses jovens chulos do mar, "no mar que não nos dá coisa alguma a não ser pancadas e por vezes uma oportunidade de sentirmos nossa própria força", como diria J. Conrad no seu clássico "Juventude".
Informações sobre a banda:
http://www.charmechulo.com.br/
http://www.myspace.com/charmechulo



