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Entrevista

Guitarrista do Cachorro Grande diz que não existe rock nacional

Marcelo Gross conta que é difícil ser um representante do gênero num país de axé, samba e futebol

A banda Cachorro Grande | Divulgação
A banda Cachorro Grande (Foto: Divulgação)

A banda de Porto Alegre Cachorro Grande se apresenta nesta sexta-feira (15) em Curitiba ao lado de um representante paranaense do gênero, os Dissonantes. Mesmo com um projeto de incentivo engatilhado na MTV, o guitarrista Marcelo Gross disse, em entrevista por telefone à Gazeta do Povo, que não existe rock nacional. "Faltam bandas, faltam condições. A gente faz rock no país do axé, do samba e do futebol", disparou.

Gross contou que o Cachorro Grande canta em português, mas para ele as "matérias-primas básicas" do rock estão no inglês. "Somos filhos dos Beatles, Rolling Stones e do The Who, mas tivemos que gravar em português", disse.

Para deslanchar com o som no cenário nacional, o guitarrista contou que foi necessário se deslocar para a capital paulista para fechar o contrato com a gravadora. "A gente já estava indo aos poucos para São Paulo, mas para nos contratarem, foi crucial vir para cá e morar aqui", disse Gross.

Com o último disco de inéditas gravado em 2007, o Cachorro Grande promete dois álbuns para o próximo ano, sendo um com gravação ao vivo. "Estamos em fase de pré-produção, experimentando arranjos. Não está definido o que vai ser primeiro, se será o disco de estúdio ou o MTV Ao Vivo", contou.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

O primeiro CD da banda não foi bem recebido pelas gravadoras, o que fez com que a banda não tivesse muita visibilidade até então. O motivo seria que o álbum não era comercial. Já o segundo trabalho rendeu um contrato com a Deckdisc, a mesma que assina Pitty e NX Zero. O que mudou?

O fato de ser comercial não foi o motivo, afinal o segundo disco é o mais "anticomercial". É bem maluco, foi gravado meio ao vivo. A nossa gravadora já estava "namorando" a gente desde o primeiro disco. Foi só mudar para São Paulo para facilitar tudo.

Por que São Paulo para viabilizar a carreira?

Eles não teriam condição de divulgar e trabalhar a banda se a gente tivesse ficado em Porto Alegre. A gente já estava indo aos poucos para São Paulo para fazer a divulgação, mas para eles nos contratarem foi crucial a gente vir para cá e morar aqui.

Vocês tiveram algum apoio para possibilitar a ida a São Paulo?

A gente foi indo aos pouquinhos. No início teve o apoio da gravadora para a gente ficar em um lugar. Eles deram essa força nos primeiros seis meses. Mas era uma coisa que a gente alimentava desde o início da banda. Já tinha uma galera a fim de ouvir a banda quando os clipes começaram a tocar na MTV e quando começamos a tocar em São Paulo. A coisa ficou intensa mesmo quando lançamos o segundo disco pela gravadora do Lobão, que foi o primeiro com distribuição nacional. O primeiro disco era de uma gravadora pequena que só distribuía no Sul.

Você acha que a banda não teria chegado ao patamar que chegou se não fosse o respaldo do Lobão, que lançou o segundo disco da banda?

Eu acho que foi um conjunto de fatores, mas é claro que a ajuda dele foi muito importante em uma hora que a gente estava com o disco gravado e ninguém queria lançar. A gente tinha vontade de lançar o disco com uma gravadora do Sul, mas quando o disco ficou pronto, eles acharam que era coisa de "drogadão". Eles sugeriram que a gente gravasse o disco inteiro de novo, e a gente queria que fosse lançado "doidão" daquele jeito mesmo. Batemos o pé e acabamos ficando com o disco. Com isso atrasou o lançamento e o Lobão salvou quando lançou pela revista dele.

Você acha que hoje há mais abertura para esse tipo de som do que era quando vocês lançaram o disco?

Tinha uma rejeição, mas a gente abriu portas para esse som "The Who seiscentista em português". Há um público maior, a gente tirou leite de pedra durante um tempo e para o pessoal que faz esse tipo de som hoje em dia é mais fácil chegar às pessoas porque a gente já arrombou as portas.

Assim como você disse, o som da banda é cantado em português, mas tem uma aproximação com o rock internacional. Há uma preferência da banda por bandas de fora?

Somos filhos dos Beatles, Rolling Stones e do The Who, mas tivemos que fazer em português. A gente é muito influenciado por bandas nacionais antigas também como Mutantes, Walter Franco, Gil e Caetano. Temos também essa influência, mas o rock principalmente inglês é a base do nosso trabalho.

Você acha que há rock ‘n roll brasileiro?

Não existe, não. Falta banda, faltam condições. É aquela coisa, a gente faz rock no país do axé, do samba e do futebol. A coisa é mais difícil ainda.

Hoje o Cachorro Grande vai lançar um novo projeto com a MTV, "MTV e Cachorro Grande apresenta Bandas do Sul". Como foi esse processo?

A gente gravou o reality show que vai ao ar no dia 17 de novembro. São nove episódios e foi uma viagem maluca que fizemos em dois carros, visitamos 11 cidades e 16 bandas.

Passaram por Curitiba também?

Sim, nós vimos duas bandas em Curitiba. Foi o Dissonantes e uma banda chamada Suburbia que foi quase uma das escolhidas. Foi uma das que a gente ficou em dúvida para colocar no final. Na verdade todas as bandas vão aparecer no programa, mas teve uma que a gente escolheu para abrir o nosso show, que foi no final do programa em Porto Alegre.

Você acha que esse pode ser um meio efetivo para divulgar a música daqui, que tem poucos representantes de conhecimento nacional?

Eu acho que tem um monte de banda boa. O lance de abrir ou não depende das bandas de ganharem o seu status. Tem espaço, tem o lance da Internet que ajuda. Tem o fato de ficar um tempo em São Paulo. Um exemplo de uma banda de Curitiba que está fazendo isso e está se dando bem é o Faichecleres. Eles vieram para cá e é aqui o lugar para uma banda de rock ficar.

Essa não é a primeira vez que vocês tentam incentivar outras bandas. Você acha importante focar não só no sucesso próprio, mas também no de outros artistas, para talvez deixar uma cena musical mais forte?

Eu não consigo acreditar em cena. A gente sempre batalhou para fazer o que tinha que fazer na banda e a gente sempre gostou de ter os amigos em volta, trabalhando e fazendo as coisas junto. No caso dos Faichecleres, eles sempre foram nossos amigos e sempre que a gente pôde a gente tocou junto, fez coisas juntos. É sempre legal ter uma galera fazendo o mesmo estilo de som e rola aquele companheirismo. O que a gente puder ajudar, o que tiver ao nosso alcance, a gente sempre vai dar força.

O último CD foi lançado em 2007. Há planos para um novo trabalho de inéditas?

Sim, a gente está fazendo as demos do disco novo. Estamos com quase todas as músicas prontas e estamos naquela fase de pré-produção, experimentando arranjos. A gente pretende entrar em estúdio no ano que vem e a gente tem o projeto de fazer um MTV Ao Vivo também. Não está definido o que vai ser primeiro, se vai ser o disco de estúdio ou ao vivo, mas os projetos estão sendo conversados e encaminhados. Ou um ou outro.

Isso é tudo para o ano que vem?

Sim. A gente está batalhando para conseguir gravar o Ao Vivo esse ano, mas é complicado o lance da gravadora. Depende deles também colocarem grana no projeto. Vai rolar, mas só não sabemos exatamente quando.

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