
Ele foi o mestre absoluto da crônica, um gênero considerado menor em relação ao poema, ao conto e ao romance. O próprio Rubem Braga dizia: "Não sou de inventar coisas, mas de contá-las. Seria preciso dar-lhes um sentido, mas não encontro nenhum. As coisas, em geral, não têm sentido algum." Em outra ocasião, disse: "O cronista de jornal é como um cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha e vai." Afirmou também: "Imprudente ofício é esse, de viver em voz alta." E, a um repórter insistente, deu essa definição zen: "Ora, se não é aguda, é crônica."
Aguda foi a vida do cronista. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim (ES), em 12 de janeiro de 1913, publicou textos avulsos no jornal da família, mas sua carreira começou de fato em Belo Horizonte, aos 19 anos. Hostilizado pela redação ao herdar o posto do irmão, Newton, nos Associados de Minas, foi escalado por troça para cobrir uma exposição de cães. Fez um texto surpreendente, que lhe valeu um convite para escrever crônicas. Começava aí a carreira do "Sabiá da Crônica" (Sérgio Porto). Mas Rubem teve uma carreira movimentada como repórter: foi até correspondente de guerra, na Revolução Constitucionalista de 1932 e na campanha da FEB na Itália durante a Segunda Guerra. Em 1952, andou pelo Paraná, com Arnaldo Pedroso dHorta, fazendo reportagens sobre o progresso do estado em Dois Repórteres no Paraná, (leia mais nesta página). Em 25 de janeiro de 1958, publica na revista Manchete a crônica considerada sua obra-prima, Ai de ti Copacabana, escandida em sombrias profecias bíblicas:
"1.AI DE TI, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite."
A carreira sentimental de Rubem Braga também começou cedo. Aos 19 anos conhece em BH Zora Seljan, descendente de croatas, jovem avançada e comunista. Casam-se em 1936 e vão morar no Rio, numa pensão do Catete, onde convivem com o casal Graciliano Ramos. A união com Zora lhe dá o único filho, Roberto, e dura até 1948. Nos anos 1950, quando ela casa com o escritor Antônio Olinto, Rubem comenta: "Pode ter melhorado de marido, mas, de estilo, nem tanto..."
A partir de 1963, o andarilho finca raízes num apartamento de último andar em Ipanema, onde se apropria da cobertura e constrói nela um jardim suspenso com hortas e pomares. Quando o síndico pergunta como receberia os outros condôminos na cobertura, responde: "À bala!" Afixa na entrada uma placa de cerâmica: "Aqui vive um solteiro feliz." Mas o "Velho Braga" como se autodenominou nunca foi imune a paixões. Em 1947, em Paris, cai pela belíssima Tônia Carrero, "amor não tão platônico quanto fazia crer a discrição de ambos," segundo o biógrafo Marco Antônio de Carvalho (Rubem Braga, um Cigano Fazendeiro do Ar, Globo, 2007.) Sua grande paixão foi por Bluma, mulher de Samuel Wainer, ainda nos anos 1930. Um caso sem final feliz: ela deixa o marido, engravida de Rubem, ele foge da raia, ela decide abortar. Seriam de Bluma, morta em 1951, as feições da escultura, encomendada a Alfredo Ceschiatti, que dominava a cobertura de Ipanema.
Rubem tinha um sexto sentido para as coisas do amor. Um dia apresentou num restaurante: "Vinicius, aqui Lila Bôscoli. Lila, aqui Vinicius de Moraes. E seja o que Deus quiser." Vinicius deixou a mulher, Tati, e casou com Lila.
Com o passar dos anos, Rubem foi ficando mais difícil. "Casmurro anfitrião." (Otto Lara Resende). "Parecia estar sempre de mau humor; e muitas vezes estava mesmo." (Cláudio Mello e Souza). "Ele nunca deixou de ser um mocorongo, como se dizia no Espírito Santo, o que significa alguém sem jeito, meio desengonçado, quase caipira, fora de moda." (Danuza Leão). "Se eu conhecesse outro sujeito igual a mim, nossas relações nunca chegariam a ser grande coisa." (Rubem Braga).
Na segunda-feira, 17 de dezembro de 1990, aos 76 anos, Rubem Braga reuniu os amigos para uma despedida na cobertura de Ipanema. Morreu quarta-feira à noite num quarto do Hospital Samaritano, sozinho, como desejara e pedira. A causa da morte foi uma parada respiratória em consequência de um câncer na laringe que ele preferiu não operar. Pouco antes, decidindo ser cremado, foi tratar dos detalhes no Cemitério de Vila Alpina, em São Paulo. "Mas onde está o cadáver?" perguntou o funcionário. "O cadáver sou eu," disse Rubem.
Vinte anos depois de morto, Rubem Braga batizou um "complexo". Não, nada na área da psicanálise. O Complexo Rubem Braga é composto por duas torres com elevadores panorâmicos que ligam a estação de metrô da praça General Osório ao Morro do Cantagalo. Veio facilitar a vida dos moradores da favela e também incrementar a prática dos "favela tours". No topo das torres, dois mirantes oferecem uma vista privilegiada de toda a Zona Sul carioca, com uma visão 360º do bairro de Ipanema logo abaixo dá para ver a lendária cobertura verde do "Velho Braga." Daria até assunto para uma crônica...



