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Cênicas

Hamlet Barato

Montagem fica em cartaz no Teatro Odelair Rodrigues por mais duas semanas

O escritor norte-americano H.L.Mencken desconfiava que o jovem Hamlet tinha um bom motivo para enlouquecer: ser interpretado por mais de cinco mil atores era o suficiente para deixar qualquer um maluco. Se esse for o caso, o príncipe dinamarquês acaba de dar mais um passo rumo ao hospício. A nova versão da peça acaba de estrear em Curitiba. Hamlet, Príncipe da Dinamarca, em cartaz no Espaço Cultural Odelair Rodrigues, é uma versão "de bolso" do texto de Shakespeare, feita com sérias restrições orçamentárias.

A montagem é dirigida por Gustavo Bittencourt, ator curitibano que decidiu usar o clássico para retornar ao teatro mais tradicional, depois de passar um ano fazendo experiências com live art e performances. Como não tinha qualquer dinheiro para fazer o trabalho, o diretor estreante chamou para o palco apenas conhecidos. "É delicado você sabendo que vai demorar para poder pagar as pessoas", diz ele.

Parte do esforço da trupe foi para manter a história funcionando com um número reduzido de atores. Hamlet, conforme programado por Shakespeare, tem 23 personagens. Na versão reduzida do grupo, que deixou a peça com cerca de uma hora e meia, ao invés das quatro tradicionais, alguns personagens menores desapareceram. Mesmo assim, cada ator é obrigado a fazer quatro ou cinco personagens por noite.

Na estréia, na semana passada, Bittencourt fez o jovem Hamlet e também interpretou Horácio – ou seja, foi conselheiro de si mesmo. Mais curioso: interpretou ainda o tio Cláudio, o assassino do rei de quem Hamlet deve se vingar.

"A divisão dos papéis varia conforme a noite", explica o diretor. "Todos nós sabemos vários personagens e podemos trocar facilmente", conta. Mesmo sem haver trocas de figurino que, necessariamente, correspondam às trocas de personagem, Bittencourt diz não acreditar que a platéia se confunda por isso. "O importante é que todas as personagens estão lá e suas funções na peça foram mantidas", opina.

Apesar da vinda do diretor de um teatro mais performático, o Hamlet do grupo é bastante tradicional. Segue a maior parte das recomendações de Shakespeare e mantém a história original. Embora o comentário possa parecer desnecessário, não é. No século 20, tornou-se comum manter Shakespeare de todas as maneiras possíveis. Há desde versões que trazem a trama para tempos modernos até traduções para o klingon – o idioma imaginário falado por personagens de Jornada nas Estrelas.

"Hamlet é uma peça que fascina as pessoas há séculos", diz a professora de Letras da Universidade Federal do Paraná Liana Leão, doutora em Shakespeare. Por isso, diz a especialista, há essa compulsão de todas as companhias em encenarem a peça. "O texto fala sobre um ser humano que está se transformando, aprendendo a conviver com os problemas que a vida lhe impôs. Por um lado, ele sabe que o fantasma de seu pai assassinado exige vingança, seguindo a tradição medieval. Por outro, como homem moderno, ele usa a sua consciência como guia. É por isso que a peça precisa de mais monólogos do que qualquer outra de Shakespeare, para podermos espiar o que se passa na alma do personagem".

Liana diz que o tipo de montagem que se faz hoje das peças shakespearianas vem sendo influenciado por uma espécie de "bardolatria" criada no século 18. "Virou não só uma referência, mas uma obrigatoriedade montar Shakespeare", opina ela. Não é à toa que, só nos últimos 12 meses, além da montagem de Bittencourt, já tenham passado por Curitiba três outras versões da história: uma leitura cênica de A Falsa Suicida, que traz Ofélia como bailarina de peep show; Hamlet na Máfia, que faz do personagem central um gângster na Chicago dos anos 30; e Hamlet Opus Machine, um vídeo de Cristiano Burlan.

A nova montagem fica em cartaz por apenas mais dois fins de semana no Odelair Rodrigues. Depois, a intenção de Bittencourt é tentar viajar com a peça. Pelo menos para recuperar os R$ 2 mil que investiram até aqui.

Serviço: Hamlet, Príncipe da Dinamarca. Espaço Cultural Odelair Rodrigues (Av. Sete de Setembro, 2.434), (41) 3019-1758. Direção de Gustavo Bitencourt. Com Gustavo Bitencourt, Neto Machado e Michelle Moura. Sexta e sábado às 20 horas e domingo às 19 horas. R$ 10 e R$ 5 (classe artística, estudantes e idosos).

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