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Teatro

História de uma sobrevivente

Edwin Luisi apresenta no Teatro da Caixa monólogo premiado sobre uma alemã que não se deixou derrotar

Premiado pelo Shell RJ 2008, Edwin Luisi interpreta 22 personagens, com diferentes vozes, tipos e tiques | Divulgação
Premiado pelo Shell RJ 2008, Edwin Luisi interpreta 22 personagens, com diferentes vozes, tipos e tiques (Foto: Divulgação)

Ao encarar um monólogo povoado por mais de duas dezenas de personagens, o ator Edwin Luisi procurava um desafio que o "chacoalhasse". A admiração pela figura central de Eu Sou Minha Própria Mulher, espetáculo que faz curta temporada no Teatro da Caixa neste fim de semana, só veio depois.

Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002), personagem verídica, foi uma alemã notória, nascida sob a identidade masculina de Lothar Berfeld, à qual recusou e reinventou. Enfrentou travestida um dos períodos mais brutais da recente história mundial – os regimes totalitários que sufocaram a Alemanha Oriental.

"Quando o Muro de Berlim caiu, veio à tona uma série de fatos que não se sabia, e um deles era a vida dela", observa o intérprete. Charlotte chamou a atenção de um jornalista americano que, por sua vez, comunicou a um escritor conterrâneo a história dessa mulher, deixando-o fascinado. Doug Wright, o autor texano, entrevistou a alemã e transpôs sua biografia para o palco, em um texto vencedor do Pulitzer, na categoria drama, e do Tony, prêmio máximo do teatro nos Estados Unidos.

Edwin Luisi ouviu falar da obra e tratou de vê-la. Como a montagem americana viajava, então, pela longínqua Austrália, preferiu dar um pulo na Argentina e conferir a versão vizinha. "Vimos que a força da peça era muito grande, mas eu não queria fazer nada igual à montagem deles, porque o ator, embora excelente, fazia apenas três papeis. Contava a história, não vivia", justifica.

Assumir sozinho os 21 personagens com os quais Charlotte conviveu, entre eles o próprio autor da peça, lhe pareceu o certo a ser feito. "Tive de buscar vozes, tipos, tiques, características próprias de cada um", conta. O virtuosismo exigido, e alcançado, trouxe como recompensa o Prêmio Shell Rio de melhor ator em 2008. E uma coleção de elogios da crítica carioca.

"Edwin Luisi tem um trabalho de alta categoria, cujo maior mérito é a justa medida de tom e gesto nas incontáveis composições que chegam ao requinte de variar sotaques, falar bom e mau alemão", opinou Bárbara Heliodora, enquanto o crítico veterano do Jornal do Brasil Macksen Luiz escreveu que o ator escapa das armadilhas caricaturais de criar um travesti, destacando o detalhamento corporal e vocal da interpretação.

Agruras

Ao se aproximar da biografia de Charlotte, cresceu no intérprete a admiração pela maneira como sua personagem havia respondido às "maiores agruras da vida". "Ela atravessou o século 20 como travesti, em regimes que perseguiam os homossexuais, e conseguiu sobreviver com muita alegria e humor. Em nenhum momento foi derrotada. Venceu sempre: o nazismo, o comunismo, ser travesti e não ser bonita, com uma vida extremamente rica e interessante", diz.

O legado mais palpável deixado por Charlotte foi o Museu Gründerzeit, ainda em funcionamento, ao qual se dedicou desde o primeiro ano da década de 1960. Colecionadora apaixonada, aos 18 anos já enchia dois quartos com seus objetos, móveis e artefatos do dia-a-dia.

Sua história, porém, quase deixou de ser contada. Porque, entre as superações, Doug Wright descobriu fatos biográficos que o perturbaram e o fizeram parar de escrever, temporariamente. Gostava demais daquela senhora discreta (Charlotte nunca foi um travesti glamouroso) para expor a julgamento seus atos contestáveis.

"Um deles é que ela matou o próprio pai. Mas tem uma explicação: o pai mataria toda a família, foi legítima defesa. Ela também foi ladra, fez o museu com móveis roubados de casas, que iam ser destruídos para servir de combustível para os nazistas. Os jornalistas descobriram a verdade e começaram a massacrá-la por isso", informa Luisi.

Foi a própria retratada quem dissuadiu o dramaturgo e o convenceu a retomar o ofício. "Ela dizia que adotava os móveis órfãos como uma mãe adota uma criança. E disse para ele, metaforicamente, que tudo tem de ser mostrado, até as coisas ruins." São igualmente parte da vida, enfim.

Serviço:

Eu Sou Minha Própria Mulher. Teatro da Caixa (Rua Conselheiro Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Texto de Dough Wright. Direção de Herson Capri e Susana Garcia. Com Edwin Luisi. Dias 21, 22 e 23, às 21 horas, e dia 24, às 19 horas. R$ 20 e R$ 10 (clientes, idosos e estudantes). Classificação indicativa: 14 anos.

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