
Ao encarar um monólogo povoado por mais de duas dezenas de personagens, o ator Edwin Luisi procurava um desafio que o "chacoalhasse". A admiração pela figura central de Eu Sou Minha Própria Mulher, espetáculo que faz curta temporada no Teatro da Caixa neste fim de semana, só veio depois.
Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002), personagem verídica, foi uma alemã notória, nascida sob a identidade masculina de Lothar Berfeld, à qual recusou e reinventou. Enfrentou travestida um dos períodos mais brutais da recente história mundial os regimes totalitários que sufocaram a Alemanha Oriental.
"Quando o Muro de Berlim caiu, veio à tona uma série de fatos que não se sabia, e um deles era a vida dela", observa o intérprete. Charlotte chamou a atenção de um jornalista americano que, por sua vez, comunicou a um escritor conterrâneo a história dessa mulher, deixando-o fascinado. Doug Wright, o autor texano, entrevistou a alemã e transpôs sua biografia para o palco, em um texto vencedor do Pulitzer, na categoria drama, e do Tony, prêmio máximo do teatro nos Estados Unidos.
Edwin Luisi ouviu falar da obra e tratou de vê-la. Como a montagem americana viajava, então, pela longínqua Austrália, preferiu dar um pulo na Argentina e conferir a versão vizinha. "Vimos que a força da peça era muito grande, mas eu não queria fazer nada igual à montagem deles, porque o ator, embora excelente, fazia apenas três papeis. Contava a história, não vivia", justifica.
Assumir sozinho os 21 personagens com os quais Charlotte conviveu, entre eles o próprio autor da peça, lhe pareceu o certo a ser feito. "Tive de buscar vozes, tipos, tiques, características próprias de cada um", conta. O virtuosismo exigido, e alcançado, trouxe como recompensa o Prêmio Shell Rio de melhor ator em 2008. E uma coleção de elogios da crítica carioca.
"Edwin Luisi tem um trabalho de alta categoria, cujo maior mérito é a justa medida de tom e gesto nas incontáveis composições que chegam ao requinte de variar sotaques, falar bom e mau alemão", opinou Bárbara Heliodora, enquanto o crítico veterano do Jornal do Brasil Macksen Luiz escreveu que o ator escapa das armadilhas caricaturais de criar um travesti, destacando o detalhamento corporal e vocal da interpretação.
Agruras
Ao se aproximar da biografia de Charlotte, cresceu no intérprete a admiração pela maneira como sua personagem havia respondido às "maiores agruras da vida". "Ela atravessou o século 20 como travesti, em regimes que perseguiam os homossexuais, e conseguiu sobreviver com muita alegria e humor. Em nenhum momento foi derrotada. Venceu sempre: o nazismo, o comunismo, ser travesti e não ser bonita, com uma vida extremamente rica e interessante", diz.
O legado mais palpável deixado por Charlotte foi o Museu Gründerzeit, ainda em funcionamento, ao qual se dedicou desde o primeiro ano da década de 1960. Colecionadora apaixonada, aos 18 anos já enchia dois quartos com seus objetos, móveis e artefatos do dia-a-dia.
Sua história, porém, quase deixou de ser contada. Porque, entre as superações, Doug Wright descobriu fatos biográficos que o perturbaram e o fizeram parar de escrever, temporariamente. Gostava demais daquela senhora discreta (Charlotte nunca foi um travesti glamouroso) para expor a julgamento seus atos contestáveis.
"Um deles é que ela matou o próprio pai. Mas tem uma explicação: o pai mataria toda a família, foi legítima defesa. Ela também foi ladra, fez o museu com móveis roubados de casas, que iam ser destruídos para servir de combustível para os nazistas. Os jornalistas descobriram a verdade e começaram a massacrá-la por isso", informa Luisi.
Foi a própria retratada quem dissuadiu o dramaturgo e o convenceu a retomar o ofício. "Ela dizia que adotava os móveis órfãos como uma mãe adota uma criança. E disse para ele, metaforicamente, que tudo tem de ser mostrado, até as coisas ruins." São igualmente parte da vida, enfim.
Serviço:
Eu Sou Minha Própria Mulher. Teatro da Caixa (Rua Conselheiro Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Texto de Dough Wright. Direção de Herson Capri e Susana Garcia. Com Edwin Luisi. Dias 21, 22 e 23, às 21 horas, e dia 24, às 19 horas. R$ 20 e R$ 10 (clientes, idosos e estudantes). Classificação indicativa: 14 anos.



