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Oscar

Hollywood mais cult?

Críticos de cinema comentam as mudanças de rumo do Oscar e como a premiação, que completa 82 anos, influencia produções e plateias de todo o mundo

Cena de Quem Quer Ser Milionário?, favorito ao Oscar de melhor filme | Divulgação
Cena de Quem Quer Ser Milionário?, favorito ao Oscar de melhor filme (Foto: Divulgação)

Uma produção inteiramente filmada na Índia com atores desconhecidos. Poucos apostariam que Quem Quer Ser um Milionário?, do inglês Danny Boyle, pudesse receber dez indicações ao Oscar deste ano. No ano passado, o despretensioso Juno surpreendeu e levou a estatueta de melhor roteiro original, repetindo o feito de Pequena Miss Sunshine, outro filme independente, em 2007.

O Oscar chega aos 82 anos com escolhas que denunciam uma certa vitalidade. A maior premiação de cinema do mundo começa a apontar novos rumos? "Hollywood é uma indústria complexa, que visa tanto ao entretenimento (entenda-se aqui produto rentável, de grande bilheteria) como uma certa capa de intelectualidade. Seguindo esses dois preceitos é que se entende um pouco o sucesso de Quem Quer Ser um Milionário?: ao mesmo tempo em que flerta com Bollywood (sua versão indiana), Hollywood aposta em um produto alternativo, dito cult", diz Ubiratan Brasil, jornalista e crítico do Estado de S. Paulo.

O crítico Rubens Ewald Filho, que ao lado da ex-VJ Chris Nicklas comenta neste domingo a exibição ao vivo do Oscar pelo canal pago TNT, a partir das 21 horas, não vê gratuidade na escolha do filme. "A Índia está longe de ser um país periférico. Hoje é a nova potência, quase a nova China. E tem a grana que os americanos querem. Ou seja, o casamento ideal, Bolly e Hollywood."

O crítico de cinema da Folha de S. Paulo Sérgio Rizzo explica que os sócios mais jovens do colégio eleitoral que elege os candidatos ao Oscar, na faixa etária de 50/60 anos, foram capazes de imprimir suas preferências. Mas não há ilusões. "A produção cinematográfica norte-americana sempre foi movida pela busca do lucro. Se ele vier acompanhado de prestígio, ótimo", diz.

Na opinião de Ewald Filho, a preferência do Oscar pelos blockbusters até atrapalha. "A Academia tem mudado muito e preferido filmes de arte, de polêmica, e a prova é que deixou Batman – O Cavaleiro das Trevas fora dos cinco melhores, o que até foi injusto".

O fenômeno é explicado pelo artista visual curitibano Tom Lisboa, autor de uma dissertação de mestrado sobre a estatueta do Oscar. "Boa parte do cinema independente e marginal rejeita a fórmula do cinema-indústria e o ‘padrão Oscar’ buscando novos caminhos e experimentações. Ironicamente, ao invés do padrão sucumbir a esta inovação, ele sai revigorado, com novas referências e possibilidades. A inclusão cada vez maior de filmes de baixo orçamento na cerimônia da Academia comprova esta hipótese."

Influência

Rizzo vê o Oscar como uma eficiente ferramenta de divulgação da indústria norte-americana . "E muita gente se entrega ao circo de mídia criado por ele sem perceber essa dado mercadológico essencial."

A influência do evento sobre as platéias mundiais tem dois lados. "É negativa quando os filmes de Hollywood passam a ocupar boa parte das salas exibidoras, sufocando a cinematografia local e não permitindo que se aprecie uma variedade de estilos e escolas diferenciadas. Mas pode ser positiva, quando apresenta filmes de qualidade como Wall-E, por exemplo, uma pequena obra-prima", diz Ubiratan Brasil.

Boa ou ruim, a influência do Oscar é fato, afirma Rubens Ewald. "Está aí Benjamin Button batendo recordes no mundo todo. Foi o Oscar que o gabaritou. O público conhece o Oscar e não acredita nos outros prêmios nem em crítica: acredita no boca-a-boca, no amigo, não na imprensa e muito menos na internet."

Ewald não considera, no entanto, que o Oscar possa formar um gosto do público. "Ele colhe os frutos de quem formou. Celebra o cinema, a arte, a indústria de Hollywood."

Ubiratan Brasil alerta que o gosto popular é sempre uma incógnita ao lembrar que filmes premiados podem ser enormes sucessos de público, como Titanic, ou esquecidos com rapidez, como Crash. "Mas os filmes hollywoodianos têm uma fórmula narrativa já condicionada para sensibilizar o gosto da maioria do público do planeta."

Rizzo acha que tentar responder a questão seria como discutir o ovo e a galinha. "E o Vento Levou... e O Poderoso Chefão se tornaram populares e ajudaram a moldar gostos por causa do Oscar, ou o Oscar os premiou porque eram populares e ajudaram a moldar gostos? Seja como for, o ciclo se realimenta o tempo todo."

Consagração?

Além do prestígio que trouxeram a seus realizadores, as indicações de filmes brasileiros ao Oscar não contribuíram em nada para o desenvolvimento da produção nacional, opinam os entrevistados. "A criação de um mercado interno é justamente o que não interessa a uma indústria tão poderosa como a do cinema americano. Talvez exista ainda uma certa angústia pelo fato de o Brasil ainda não ter ganhado nenhuma estatueta (pior: a Argentina já ganhou..., com A História Oficial), mas isso, de prático, não significa nada", diz Ubiratan Brasil.

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