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Literatura

Hornby debocha de si próprio

No romance Juliet, Nua e Crua, o escritor faz uma crítica aos personagens típicos de seus livros, correndo o risco de ofender os fãs

Hornby: futuro incerto para a obra do autor de Alta Fidelidade e Febre de Bola | Divulgação
Hornby: futuro incerto para a obra do autor de Alta Fidelidade e Febre de Bola (Foto: Divulgação)

São Paulo - Nick Hornby amadureceu. Se isso é bom ou ruim, a resposta ainda não está no romance Juliet, Nua e Crua. O melhor adjetivo para o livro: surpreendente. Porque pela primeira vez o escritor debocha de seus personagens típicos. O que pode ofender seus leitores típicos.

Desde a estreia, Fome de Bola, e, principalmente, Alta Fidelidade, Hornby enfoca trintões ou quarentões que insistem em manter comportamento adolescente. Ele mesmo imerso no mundo pop, criou tipos que guiam suas vidas pelos novos álbuns de seus ídolos.

Alta Fidelidade, ainda sua obra mais poderosa, disseminou a mania de eleger listas de cinco melhores e, mais do que definir um comportamento, deu às pessoas uma espécie de aval para adotar atitude teen sem parecer ridículo.

O problema é que Hornby, aos 53 anos, parece ter enxergado o ridículo nisso. Sumiu o carinho que ele dedicava à turma da loja de discos de Alta Fidelidade. Sobra em Juliet, Nua e Crua ironia e crueldade para Tucker, Annie e Duncan, o trio que tenta colocar em pé a trama do livro.

"Novo Dylan"

Na teoria, são três personagens plenamente integrados ao universo do escritor. Tucker Crowe é um roqueiro americano dos anos 1980, mais um "novo Dylan". Mas o cantor sumiu da mídia depois de um misterioso incidente no banheiro de um bar durante a turnê de 1986. Mais de 20 anos depois, o que restou dele é um álbum sempre lembrado entre os melhores da história, Juliet, e um amalucado séquito na internet.

O rei dos seguidores é o inglês Duncan, que busca sinais de vida de Tucker. Mas é justamente Annie, a namorada que nem liga tanto para o cantor, que acaba fazendo contato com o astro recluso, agora com 55 anos e uma penca de filhos que vieram de relacionamentos erráticos. Hornby mostra o vazio da vida de todos. Na gangorra da idolatria, ninguém ganha: o fã alucinado vive das migalhas do ídolo ausente e o astro perdeu tudo o que tinha.

Há evidente intenção de hu­­­mor em alguns momentos, mas o que fica é o retrato de derrotados patéticos. Será difícil um devoto do Radiohead perdoar o tom cáustico de Hornby. Comunidades na internet já tratam o terço inicial do livro como "uma facada nas costas".

O problema

Mas o problema de Juliet, Nua e Crua não é apenas esse novo olhar para o mundo pop. Nessa parte da narrativa, Hornby ainda mostra a prosa esperta e envolvente que o transformou em um dos grandes autores ingleses. Ele derrapa feio quando o foco passa a ser os relacionamentos pessoais. Os personagens, desta vez, não convencem, falta-lhes estofo. Quando o cinquentão Tucker conversa com a filha de 21 anos, Hornby não acerta a mão: parecem adolescentes tentando falar como adultos.

Usando o mesmo re­­­cur­­­so do personagem principal de Alta Fidelidade, viciado em listas de cinco melhores discos, a conclusão inevitável é que Juliet, Nua e Crua não figura no "top cinco" das obras do escritor. Deve ser encarado como um trabalho de transição. É esperar o próximo para entender melhor o novo Nick Hornby.

Serviço:

Juliet, Nua e Crua, de Nick Hornby. Rocco, 272 págs., R$ 34.

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