O salão do hotel em que estão amontoados cerca de 20 jornalistas há uma mesa de sinuca e uma parede com quadros que reproduzem rótulos e propagandas antigas de uísque e cerveja. No jardim, estatuetas de gnomos e cogumelos nos lembravam que o Psicodália estava a menos de 30 quilômetros dali. Ian Anderson vestia um colete por cima de uma polo azul e sentou-se despojado no sofá amarelo. Dedicou uma hora do seu dia a responder os jornalistas com paciência e seu senso de humor ímpar. É um senhor sorridente, careca e sóbrio, um pouco diferente daquela figura dos anos 1960 – cabelo desgrenhado e roupas extravagantes – quando liderava a banda Jethro Tull. Em qualquer época, porém, Anderson diz que nunca se identificou com o movimento hippie nem foi a um festival como parte do público. O que explica muito de sua postura no palco no 18.º Psicodália.
Há shows que funcionam sem a interação do público, mas seriam inesquecíveis se “descessem” do palco. O rock progressivo apresentado por Anderson e banda (a mesma da última formação do Jethro Tull) encantou a audiência por ter sido tecnicamente impecável e por ter no setlist os hits “Aqualung”, “My God” e “Thick as a Brick”. Mas em poucos momentos os que estavam com os pés na lama se sentiram parte do espetáculo. O caso é que a banda, britânica, não é tão calorosa quanto os brasileiros gostariam. “Há uma característica comum em vocês brasileiros: são muito apaixonados. A música brasileira, de qualquer gênero, é feita com paixão. Não se pode dizer o mesmo de nós. Nós somos espertos e conseguimos fazer músicas que soem como se tivessem sido feitas e tocadas com paixão. E ganhamos muito dinheiro com isso”, provocou durante a coletiva.
Anderson não se entregou ao público nem quando um coro o saudou gritando “Ian! Ian! Ian! Ian!”. Ele esperou alguns segundos antes de apresentar a próxima música e continuou com os gestos ensaiados de encantador de camundongos. Mas o Psicodália não é Hamelin, nem o Palco Lunar fica em um teatro. Havia pessoas boquiabertas e outras com o olhar parado, mas nenhuma delas apresentou o desvario que as tomou enquanto a banda passava o som horas antes. Mesmo com a cortina preta escondendo os músicos, dezenas gravavam com o celular, aplaudiam, assoviavam e gritavam em direção ao nada, o que não aconteceu na mesma proporção à noite.
A apresentação começou às 23horas e poucos minutos com a sintomática “Living in the Past”. Desde a primeira canção Ian dá seus pinotes e mostra seus floreios ao tocar a flauta. Nota-se que se esforça para fazer um bom show: “Não me importo com quem esteja na plateia, nunca me importei. Nossa audiência não era homogênea, nem hoje é. Há dentistas, médicos, hippies, jovens, senhores, pilotos de avião. Só me preocupo em me superar no palco e não em me conectar com a plateia”, declarou.
Ele posiciona a flauta próximo à virilha durante o solo de guitarra. A fixação é antiga: em vídeos no YouTube da década de 1970, seus gestos no palco são similares e mais espontâneos. Não dá para reclamar que era outro Ian. São apenas outros tempos.



