Esferas flutuantes que desafiam a gravidade, objetos repetidos ao infinito, ambientes virtuais e objetos líquidos, que se desmaterializam diante do olhar: estas são algumas das experiências oferecidas ao espectador na mostra Aparências, de Claudio Alvarez. Ocupando o último andar do Paço da Liberdade Sesc Paraná, a exposição do artista nascido na Argentina e brasileiro por adoção é uma amostra das suas últimas experiências, em que ele cria verdadeiros mecanismos alteradores da percepção. Utilizando lentes, espelhos e iluminação, Alvarez inventa brincadeiras visuais que envolvem os espectadores em um divertido jogo de ilusão e fascínio.
A obra de Alvarez se iniciou no Brasil no final da década de 1970, e já no começo dos anos 1980 surgiram as primeiras obras cinéticas, explorando situações de movimento e equilíbrio em elegantes estruturas de metal. Sua pesquisa desenvolveu-se no uso de espelhos e outros materiais que criam situações de ilusão e alteração perceptiva: nas palavras do artista, "o trabalho deve criar uma baguncinha na cabeça do espectador". É o que vemos em "Gravidade Zero", com suas esferas que desafiam as leis da física, e em "Infinito", com seu título simples e auto-explicativo. Também estão lá as "Instalações para Viagem", pequenos espaços virtuais que fazem irônica referência ao formato artístico contemporâneo das instalações, e as mais recentes "Aparências e Mercúrio", jogo cinético e de iluminação que transforma metal em líquido.
A curadoria de Maria Alice Vaz também incorporou à mostra o hipnótico vídeo "Mercúrio", realizado por Ana Bellenzier a partir da obra de Alvarez de mesmo nome, e um experimento de Tiago Alvarez, filho do artista, intitulado "Caixa Filosófica", proposta intrigante que emprega princípios da fotografia e do cinema. A obra de Alvarez vai assim recebendo importantes desdobramentos, demonstrando a riqueza e a consistência do seu trabalho.
Visão e percepção
Além do aspecto lúdico, as invenções chamam a atenção por sua contemporaneidade: mas não se trata, aqui, do "contemporâneo" excessivamente intelectualizado que é dominante no ambiente artístico atual. Na sua arte, a diversão não exclui a inteligência: o espectador é levado pela ilusão, e ao mesmo tempo reconhece que está sendo iludido, e que algo diferente acontece com a sua percepção. É uma obra verdadeiramente transformadora do olhar: diante dos seus trabalhos, somos levados a perceber que enxergamos o mundo não com os olhos, mas com a mente. Percebemos assim que, na percepção do mundo, a mente opera muito mais com a imaginação do que com a razão. Sabemos que somos iludidos, mas percebemos o quanto a ilusão é divertida e prazerosa.
Sem intelectualismos
Os mecanismos de Alvarez criam um olhar que é ao mesmo tempo criativo e inteligente, mas que não precisa de uma justificativa filosófica ou crítica. Ao invés da reflexão filosófica preceder o trabalho artístico, é o trabalho artístico que propicia a reflexão filosófica: somos levados a pensar sobre como vemos, como entendemos o mundo, e sobre como, enfim, pensamos. A obra de Alvarez nos lembra que nada é o que parece, pois o que possuímos do mundo são apenas as nossas percepções, articuladas pela nossa razão e pela nossa imaginação.
Popularidade
Daí o sucesso das obras exibidas na mostra Aparências entre pessoas das mais variadas procedências, classes sociais e idades: Alvarez mostra que a arte contemporânea não precisa ser "cabeça" para ser inteligente e que a arte também não precisa ser simplificada ou pouco profunda para ser, também, popular. Quem visitar a exposição verá um local diferente dos ambientes tradicionais da arte, ocupados por visitantes silenciosos e pensativos, tentando decifrar obras enigmáticas e misteriosas: o que se vê é algo muito mais parecido com um parque de diversões, em que as pessoas riem, conversam e se maravilham. O mundo da arte contemporânea é hoje permeado e às vezes conduzido por um excesso de discurso pretensamente filosófico e francamente elitista: para as pessoas comuns, é como se fosse um clube fechado a poucos iniciados. A obra de Alvarez, ao contrário, é contemporânea e ao mesmo tempo acessível a qualquer pessoa que possua, simplesmente, imaginação esse verdadeiro patrimônio da humanidade.
Fabricio Vaz Nunes é professor de História da Arte da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, crítico de arte e mestre em História da Arte pela Unicamp. Atualmente é doutorando em Estudos Literários pela UFPR.
Serviço:
Aparências, exposição de Claudio Alvarez. Paço da Liberdade Sesc Paraná (Pça. Generoso Marques, 180). 3ª a 6ª, das 10h às 21h; sáb., das 10h às 18h; dom. e feriados das 11h às 17h. Entrada franca. Até 9 de outubro.



