
O futuro de Lina Faria até parece que, desde muito, já estava delineado. Em 1961, a família deixava Nova Esperança (onde ela nasceu) rumo a Ivaiporã. No caminho, na cidade de Kaloré, a menina, de apenas seis anos, praticamente caiu do caminhão da mudança. Apenas de vestidinho de bolinhas e sandálias nos pés, viu um circo e caminhou em direção à tenda, quando a família a encontrou.
Não foi daquela vez que Lina colocou o pé na estrada. Mas a curiosidade, que quase levou a menina para um futuro desconhecido, foi o motor que a ajudou a traçar o seu caminho pelo mundo.
Atualmente, ela produz as fotos de paranaenses que são biografados pelo jornalista Aroldo Murá, o "Professor", para a terceira edição do livro Vozes do Paraná. Dia desses, Lina teve, segunda ela mesma, o privilégio de fazer o registro fotográfico de Wilson Martins, de 87 anos, o crítico literário que há mais de meio século faz a radiografia da literatura brasileira. A fotógrafa conta que se surpreendeu com Martins, "um sujeito brilhante, muito inteligente e extremamente lúcido".
Lina, na condição de repórter fotográfica, não se limita a "apenas" apertar os botões de sua máquina, enquadrar e realizar imagens, em geral, muito expressivas. Ela participa ativamente das entrevistas, às vezes até mais do que o "repórter de texto". Questiona, interroga, emite opiniões. Não teme, por exemplo, fazer perguntas inconvenientes. Lina não é de ficar quieta. Perde o emprego, mas não perde a piada.
Uma maneira de a definir: é uma profissional que escreve com a luz enquanto faz perguntas contundentes.
Lina vive há pouco mais de três anos em um apartamento que, pelas janelas da sala de entrada, revela telhados do Setor Histórico e, pelos fundos, tem vista para o Solar do Barão e para o Passeio Público.
Quando faz sol, todos os 180 metros quadrados ficam iluminados ao longo do dia. Dois quartos estão vagos. Na porta de cada um desses cômodos tem uma placa com o nome de suas filhas, Anaterra e Tarsila, que saíram da casa da mãe, mas podem voltar quando tiverem vontade. Discos de vinil estão pendurados nas paredes, até pelo corredor: são enfeites. Lina, aos 55 anos, não sabe até quando vai continuar nesse endereço.
Sempre em trânsito
Aos 16 anos, Ivaiporã revelou-se limitada para aquela inquieta jovem. A década de 1970 estava no início quando Lina chegou em Curitiba. Ela entrou no curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Trabalhou em cartório, fez pesquisa de mercado e se entediou.
A vontade de expandir os horizontes fez com que Lina experimentasse temporadas na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Se o curso de jornalismo (sem conclusão) ficou no passado, a fotografia cada vez mais se tornava presente e estaria em seu futuro.
Lina fez a vida como fotógrafa, no jornalismo e na publicidade, nas iniciativas pública e privada. Mas nunca escondeu de ninguém que um dia sonhou ser arquiteta. Esse desejo fez com que ela realizasse ensaios sobre o assunto para revistas da Editora Abril. O arquiteto Fernando Popp é um de seus melhores amigos. Ela já clicou projetos arrojados de Jaime Lerner, com quem estabelece permanente diálogo.
O recorte contínuo que Lina faz realidade pode ser conferido em seu blog. Ela costuma caminhar com o seu equipamento e, rápida que é, captura flagrantes onde quer que eles aconteçam. Neste ano, pode ser que edite um ou dois livros, depende ainda das circunstâncias. Material ela tem para uma dezena de obras.
A interdisciplinar Lina Faria é uma falante loquaz. Gesticula, sorri e conta algum segredo: confessa que é tímida. No entanto, com as fotos que tira, ela vem contando o que vê, sem pedir licença e com não pouca poética.
Serviço
Blog de Lina Faria na internet: http://naftalina55.blogspot.com



