Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Literatura

Infinita dimensão da estupidez humana

Novo livro do escritor José Saramago, Caim surge quase 20 anos depois da polêmica desencadeada por O Evangelho Segundo Jesus Cristo

José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998, usa um personagem bíblico para fazer ataques a Deus no romance Caim | Mauricio Lima/AFP
José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998, usa um personagem bíblico para fazer ataques a Deus no romance Caim (Foto: Mauricio Lima/AFP)

São Paulo - Caim, o primogênito de Adão e Eva que matou o irmão Abel, mais parece um personagem da ilha do seriado Lost nas mãos de José Saramago em Caim, romance que acaba de ser publicado mundialmente.Isso porque, além de cumprir, como na versão bíblica, a condenação do senhor de vagar de modo errante pelo mundo após um monstruoso crime, Caim também viaja no tempo.

O escritor português faz com que o personagem visite várias passagens do Antigo Testamento. Sem­­­­pre de modo repentino. Sem se dar conta, Caim dorme e acorda em épocas e situações diferentes.

Com esse recurso, Saramago logra fazer com que esteja presente na provação de Abraão, na condenação de Sodoma e Gomorra, no episódio do bezerro de ouro de Moisés, na casa de Jó. Para finalizar, Caim também participa – e altera – a saga de Noé e a Arca.

O propósito do escritor Prêmio Nobel não é muito desconhecido dos leitores. O que o protagonista faz, em cada passagem deste engenhoso e bem-humorado romance, é questionar Deus e cada uma das decisões por ele tomadas.

Caim expõe o que vê como maldade, injustiça, obsessão pela violência e inverossimilhanças de diferentes ordens em vários mo­­mentos.

"Caim é o que nasceu para ver o inenarrável, caim é o que odeia deus", escreve (os nomes dos personagens são apresentados sempre em letra minúscula, de propósito).

O novo ataque à religião do ateu Saramago surge quase 20 anos depois da polêmica desencadeada por O Evangelho Segundo Je­sus Cristo. A versão do português, cheia de ciladas contra Deus, criou um mal-estar com o governo do país, que o impediu de candidatar-se a um prêmio europeu de literatura. Saramago então abandonou Portugal e foi viver na ilha espanhola de Lanzarote.

Em entrevista por e-mail, Saramago explicou que o tema de Caim era uma antiga preocupação, e que não há vínculo direto entre este e a controversa história de Cristo que catapultou-o à fama internacional e consolidou as convicções antirreligiosas do escritor.

Saramago reforçou palavras suas de novembro 2008. Na época, afirmou que a Bíblia não era um livro que se poderia deixar nas mãos de um inocente, pois só conteria maus conselhos, assassinatos, incestos. Agora, segue na pregação: "À Bíblia eu chamaria antes um manual de maus costumes. Não conheço nenhum outro livro em que se mate tanto, em que a crueldade seja norma de comportamento e ato quase natural."

Deus é xingado em Caim. Esse senhor "rancoroso" admite a culpa pelo crime contra Abel, não hesita em estimular guerras, matar crianças inocentes, punir os bons e fazer com que as pessoas acreditem em situações improváveis. Como é possível um homem embriagado engravidar uma mulher? Como todos os animais do planeta poderiam ter sido representados na Arca de Noé? São algumas das perguntas que Caim se faz ao observar a trama bíblica.

Saramago diz que, por meio dele, tenta expor a "infinita dimensão da estupidez humana", capaz de acreditar em fábulas como essas. "Curiosamente, não se repara que Deus não fez nada durante a eternidade que precedeu a (su­­posta) criação do universo. Depois, não se sabe por que nem para que, resolveu fazer um universo. E desde então está outra vez sem fazer nada", conclui.

Às vésperas de completar 87 anos, Saramago anda numa fase muito produtiva. Depois de Viagem, lançou, em julho, O Caderno, com textos escritos para o blog (blog.josesarama go.org), e já pensa no próximo.

"Simplesmente, ainda te­­nho algumas coisas para di­­zer. Talvez com mais urgência porque o fim da minha vida se aproxima. Estou a escrever um novo livro que nada tem que ver com os imediatamente anteriores."

Serviço

Caim, de José Saramago. Companhia das Letras, 176 págs., R$ 36.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.