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Depoimentos

Intelecto, afetividade e memória

Cinéfilos falam sobre como os filmes passaram a fazer parte importante de suas vidas

O britânico Rex Harrison viveu o personagem-título do filme O Fantástico Dr. Doolittle | Divulgação
O britânico Rex Harrison viveu o personagem-título do filme O Fantástico Dr. Doolittle (Foto: Divulgação)
Cena clássica de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick |

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Cena clássica de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Béatrice Dalle, no filme Betty Blue |

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Béatrice Dalle, no filme Betty Blue

A reportagem do Caderno G Ideias ouviu alguns cinéfilos assumidos a respeito da paixão que nutrem pelos filmes, e de como teria nascido esse vínculo de afeto que os acompanha até hoje. Em todos os depoimentos, sem qualquer exceção, os entrevistados falam da infância, de experiências de espectatorialidade vivenciadas muito cedo, e que os marcaram tanto que carregam essas sensações até hoje.

O multi-artista Tom Lisboa tenta descrever o que sente quando vê um filme, afirmando que o cinema permite um resgate do olhar de criança, aquele que se questiona "De onde vinha aquilo tudo que eu tinha assistido?"."Essa talvez tenha sido a pergunta que passava pela minha cabeça quando arrastava meus pais para procurar os atores, cavalos e cenários atrás da tela do cinema.Devia ter cerca de 4 ou 5 anos, mas a recordação ainda é forte. No entanto, a lembrança dos nomes desses filmes se perdeu", diz Lisboa. É justamente a essa experiência de descoberta que a profissional de Comunicação Social Isabella Lychowski se refere quendo lembra do que sentiu ao assistir, no Rio de Janeiro dos anos 70, a 2001 – Uma Odisseia no Espaço, clássico de Stanley Kubrick, quando era menina, "Ainda hoje me lembro do assombro com que vi no cinema, bem pirralha, um feto em alguns poucos segundos ‘virar’ bebê, menino, homem, velho e muito muito velho, cada vez mais frágil e mais parecido com o feto do início. Essa cena foi para mim uma espécie de revelação espantosa: algo em mim reconhecia aquilo como já vivido, já sabido, verdadeiro."

Mas há quem faça uma regressão ainda mais radical ao buscar suas primeiras lembranças cinematográficas. Marden Machado, crítico de cinema e assessor de imprensa do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), conta que sua paixão pela sétima arte começou quando ainda era bebê de colo.

"Como assim?" é a pergunta inevitável. "Meus pais adoravam ir ao cinema em Natal (RN). Meus avós moravam em outra cidade, em Terezina (PI). A grana era curta e eles não tinham como contratar uma babá para cuidar de mim. Os dois decidiram então, de maneira sábia e pragmática, me levar junto com eles para assistir aos filmes. Eu cresci ouvindo minha mãe contar que ela cansou de me amamentar dentro do cinema. Ela dizia que eu mamava em seu seio e ficava com os olhos vidrados na tela. Talvez esteja aí a origem dessa grande paixão", brinca.

Desses filmes, vistos na primeira infância, Machado não se lembra, mas recorda que, aos 4 anos, viu na tela grande algo que o marcou para sempre. "Minha lembrança era de um filme em que as pessoas cantavam, o herói era um homem que conversava com os animais e ele viajava em um barco em forma de caracol. Anos depois, descobri se tratar de O Fantástico Dr. Doolittle, com Rex Harrison."

Vida adulta

Embora todos os entrevistados tenham sido unânimes ao afirmar que o vírus da cinefilia foi inoculado ainda na infância, a relação intensa com filmes se estendeu pela adolescência e pela idade adulta, determinando, inclusive, os rumos da vida profissional que escolheram.

Maura Martins, mestre em Comunicação Unisinos - Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS), conta que "desde cedo, os filmes operaram como uma espécie de passaporte para transpor os limites de uma vida pré-internet no interior do Rio Grande de Sul. Mais tarde, após o ingresso na vida acadêmica, o cinema – bem como outros produtos audiovisuais, como os televisivos – revelou-se um forte interesse de pesquisa, baseado na convicção de que a cultura contemporânea se expressa prioritariamente pelas obras vindas da mídia que, portanto, não são mero entretenimento nem ‘falam sobre nada’". Para Maura, apreciar o cinema como espaço privilegiado para a compreensão da cultura é imprescindível para quem pretende entender como vivemos hoje".

A cinefilia, portanto, acaba não se restringindo ao âmbito pessoal, embora muitos enxerguem no cinema, tanto na arte em si como no espaço onde os filmes são exibidos, um papel fundamental na sua construção identitária.

O escritor curitibano Luís Henrique Pellanda conta ao Caderno G Ideias que foi no cinema que firmou suas relações mais duradouras, já na juventude. "Escapávamos do ensaio, da aula, do inglês, do trabalho, e íamos para lá, nosso ponto preferencial de troca de livros, vinis e, com sorte, beijos. Pretexto para reunir turmas de dez náufragos adolescentes, desculpa para entabular conversas sublimes com moças bonitas e espertas. Só inocência."

Mas e os filmes? Pellanda lembra da "deliciosa Béatrice Dalle e sua Betty Blue", "de Lawrence da Arábia sem cortes", "do Mahabharata, de Peter Brook", de ter visto A Bela Intrigante , filme de quase quatro horas do francês Jacques Rivette, tendo como companheiro de sessão, na plateia do finado Cine Luz, o artista Poty Lazzarotto "Cinema sempre foi sexo e sociabilidade, cama e mesa, amizade e formação — de espírito, intelecto, afetividade e memória", conclui o escritor e jornalista.

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