Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Internet

Intimidade compartilhada

A vida privada e a pública já não se separam pelas mesmas paredes do passado. A privacidade extrapolou para o espaço virtual. Quais são os riscos e o que leva tanta gente a se expor em redes sociais?

Não é preciso ir muito longe para explicar como um dado postado na internet pode repercutir com assustadora velocidade e abrangência. As notícias sobre a morte de Michael Jackson estão aí para comprovar. Antes delas, a rede mundial de computadores foi cenário de escândalos vários envolvendo a divulgação de cenas íntimas de celebridades, e, depois que passe o estrondo em torno do adeus ao ídolo pop, outros casos de privacidade invadida virão à tona.

Um exemplo brasileiro. Felina é o apelido da blogueira que feriu reputações ao postar imagens desnudas supostamente de celebridades do esporte, captadas por sua webcam pelo MSN. Por mais que, sob ameaça de processo, as tenha tirado do ar, a propagação dificilmente pode ser controlada. "Caiu na rede, é de domínio público", dizem por aí, esquecendo-se de que a invasão de privacidade é passível de punição legal.

O risco de ser exposto sem querer em uma situação constrangedora ou de que outro usuário se aproprie indevidamente de sua imagem se restringe cada vez menos ao mundo das celebridades, enquanto crescem as redes de relacionamento social e os repositórios de arquivos como o Youtube.

"As pessoas, muitas vezes, colocam seus dados como se estivessem falando apenas com seus amigos e, na verdade, a fronteira entre público e privado, entre o que todos podem ver ou só alguns, é borrada, confusa", diz Sergio Amadeu, professor de Ciber­cultura do Mestrado de Co­­municação e Tecnologia da Fa­­culdade Cásper Líbero.

Essa é uma das dimensões que devem ser tratadas com mais atenção por usuários da internet. A outra, é o que os sites pelos quais se navega fazem com as informações que colhem.

Rastro

"Todo mundo que navega deixa um grande rastro digital por onde passa, o número de IP. Se eu o vinculo a você, cria-se uma completa sociedade de controle", diz Amadeu.

A preocupação aumenta porque corporações começam a cruzar dados para traçar o perfil dos usuários, e vendê-los à publicidade. Quem digita "viagem" em uma mensagem do Gmail, ferramenta do Google, vê surgirem anúncios laterias de hoteis e companhias aéreas. "O robô olhou. Mas se ele pode olhar, qualquer pessoa pode", diz o professor.

"A internet é uma rede transnacional e as leis são nacionais. Precisamos de uma nova forma de trabalhar acima dos Estados, elaborada com a sociedade civil em esfera transnacional ou vamos matar a diversidade da rede com restrições políticas de conservadorismo", defende.

Vigilância, não

O cenário não chega a ser catastrófico e mesmo o emprego do termo "vigilância", recorrente, seria exagerado, na opinião do doutor em Sociologia André Lemos, professor da Universidade Federal da Baía.

Há o perigo de que a vigilância venha a acontecer, a partir do momento em que se possibilita o monitoramento, mas a própria dinâmica da sociedade da informação imporia empecilhos. "Se o Facebook vender os dados das pessoas, elas vão migrar para outro sistema, então não há interesse nisso. Não é algo que se possa vislumbrar a curto prazo", diz Lemos.

Há algum tempo, o Facebook fez uma parceria com locadoras de vídeo, criando um sistema em que cada filme que um usuário locasse (sem restrição de gênero) era anunciado em seu perfil pessoal, à vista de todos. Quando as pessoas começaram a se revoltar, a primeira reação da companhia foi afirmar que tinha direito de fazê-lo (os usuários haviam assinado uma autorização sem ler). "Depois, tirou o mecanismo do ar, porque os usuários iriam migrar", conta Lemos.

"Os sistemas estão tentando rentabilizar ao máximo, esse é o perigo. Usuários têm de ter atenção em relação a isso e não têm." Não sabem nem usar as ferramentas de configuração de privacidade existentes, alerta o sociólogo.

Estão claros os perigos. "Com esses novos sistemas, as pessoas começam a revelar partes de sua vida privadas, efetivamente isso alimenta o voyerismo e formas de bisbilhotar a vida alheia. Sujeita-se à exposição em regime planetário de circulação de informações, em que se perde o controle com imagens copiadas e passadas para outro contexto, e ao perigo de perda do domínio sobre sua própria informação", resume Lemos.

Laços virtuais

Se há riscos, então por que se expor? A resposta é simples: porque ganha-se algo em troca. Quando se conhece alguém pessoalmente, os laços se fortalecem à medida que se partilham coisas pessoais. Não é muito diferente no ciberespaço.

"Boa parte das relações entre as pessoas é mediada pelo computador, e a mostra de detalhes de suas vidas é um meio válido para que se legitime uma relação virtual de amizade. Desprovidos de uma convivência física e íntima favorável, os sujeitos expõem e leem as privacidades e detalhes da intimidade alheia como forma de estabelecerem entre si relações de 'confiança', baseadas em afinidades", explica a socióloga Aline Matos, que pesquisa a questão das trocas interpessoais pela internet como mestranda pela Universidade Federal do Ceará.

A pesquisadora ressalta que, salvo exposições involuntárias, trata-se de uma "privacidade construída", uma tentativa de se definir diante dos outros.

"O trato social, no ambiente da internet, é permeado por esse jogo de revelações mútuas, onde cada um mostra aquilo que deseja que o outro saiba a respeito de sua personalidade". Com isso, é reconhecido e reconhece os outros, pode selecionar aqueles com quem se identifica e se aproximar desses, contrariando o "mundo de desconhecidos" que são as grandes cidades.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.