
O poeta mora na praça Tiradentes, em um edifício construído na década de 1940. Veste camisa da banda Deep Purple e fala alto para vencer o som de Bach, que ecoa na ampla sala. Antes, o maior desafio: conseguir passar pelo corredor, já estreito, que se afina ainda mais devido aos montes de caixas empilhadas. Dentro delas, livros cheirando a novo, resultantes de uma vida dedicada à leitura e às escritas.
José Gaspar Chemin lançou uma tetralogia no último dia 19. A coleção reúne quase toda a sua vasta produção em versos, muitos deles escritos há mais de 40 anos. O amor está retratado em Quando Amo Versos Tramo, o livro vermelho; a natureza e os Campos Gerais de fundamental importância na vida do autor estão em Tente Ver Vertentes, de capa verde; referências ideológicas e filosóficas são encontradas em Poemínimos Sentimáximos, o rosa; e, por fim, Irreverência ou Morte!, seleção de trocadilhos reunidos em um livro de capa amarela.
É a primeira publicação oficial de Chemin, de 66 anos. Antes, poemas em pedras: as "poedras". "Ali pelos 30 anos, comecei a escrever em pedras e isso me satisfez. Acho sacanagem a poesia ser feita em livros. Bom mesmo seria se cada poema andasse solitário, igual a uma pessoa. Um quadro, por mais vagabundo que seja, vai ter sempre um lugar na parede. Um poema, por melhor que seja, vai ficar sempre fechado dentro de um livro", diz o autor, sentado em frente a sua mesa de trabalho e degustando um bom vinho argentino.
Antes das pedras, papéis diversos. Chemin tinha 12 anos e morava em Ponta Grossa quando começou a ser atraído pelas palavras. Mas a primeira frase de que tem orgulho só veio 12 anos mais tarde. Escreveu em um papel qualquer: "Nada mais monótono do que a ignorância".
Foi nessa época que o futuro poeta, nascido no distrito de Apiaba, em Imbituva, foi preso. Era o início do golpe militar de 1964. Chemin ficou detido por 12 dias no presídio do Ahú, em Curitiba. E até hoje não sabe o exato motivo. "Não tinha justificativa, eu era apenas um garoto. Será que foi por causa daquela noite, em que foram pichar a rua e eu estava junto?", questiona-se Chemin, acendendo o quarto cigarro da manhã.
Contraditoriamente, sua "prisão política" foi responsável, em grande parte, pela publicação da tetralogia. Chemin recebe uma quantia mensal do governo, "minha anistia", diz, e já ganhou um dos processos que move contra um banco em que trabalhava, que o demitiu por ter sido preso.
Em Ponta Grossa, na década de 1960, Chemin diz ter devorado toda a biblioteca da cidade em cinco anos. O mesmo aconteceu quando se mudou para Curitiba, em maio de 1965. "Não aguentava mais a repressão de Ponta Grossa", confessa o escritor.
Chemin se diz só. "Poetas normalmente são pobres, recalcados, frustrados. Eu não. Eu sou solitário. Não abro a porta para qualquer um", explica o divorciado e pai de três filhos todos eles vivendo em outras cidades.
O poeta é metódico. A começar pela bancada de trabalho. Um grande suporte metálico, onde normalmente se encontraria uma Bíblia, serve de apoio para um dicionário Aurélio, aberto na letra "F". "É um dos meus truques. Por que assim só tenho meio dicionário para procurar".
Outra peculiaridade é sua rotina. Acorda entre as seis e sete horas, "por mais que vá dormir às cinco". Toma banho frio. "Tem uma cachoeira lá atrás", diz Chemin, e depois põe a água para ferver. Prepara um chimarrão solitário, abanca-se e lê por duas horas ininterruptas.
"Descobri porque os poetas têm fama de vagabundos mesmo que escrevam duzentos livros. É porque dizem que estou fazendo nada quando me vêem lendo um livro", adverte o poeta, que dificilmente sai de casa, mas que faz corridas diárias pelos corredores labirínticos de sua própria residência.
Ao lado do dicionário, na bancada, está um livro de Alice Ruiz. Mas não é o que está na cabeça de Chemin agora. "Felizmente, nesse momento estou lendo meus livros. Estão uma maravilha", avisa o poeta, acendendo o derradeiro cigarro.




