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Cinema

Jabor e a beleza das coisas findas

Marco Nanini é o avô de Paulinho: a felicidade dura dez minutos e depois passa | Divulgação
Marco Nanini é o avô de Paulinho: a felicidade dura dez minutos e depois passa (Foto: Divulgação)

São Paulo - Quem acompanha os textos de Arnaldo Jabor publicados em diversos jornais brasileiros, como O Estado de S.Paulo, ou os leram em antologias de suas crônicas, vai reconhecer traços dessas histórias memorialísticas no filme A Suprema Felicidade, em cartaz nos cinemas brasileiros desde sexta-feira.

Em entrevista coletiva realizada em São Paulo na última semana, o cineasta, que lança seu primeiro longa-metragem em quase 20 anos, disse que o roteiro começou a nascer na sua casa, pelo menos dois anos antes de ficar pronto.

"De repente, me vi a escrever sobre meu pai, minha mãe, as idas à zona do meretrício no Mangue, cinema e música da época. Era o filme sendo gerado e eu não sabia", diz.

Apesar de as experiências vividas por Jabor nas décadas de 40 e 50 serem a matéria-prima de A Suprema Felicidade, não se trata de uma obra autobiográfica. Paulo, o protagonista do filme, retratado em três momentos distintos – infância, pré-adolescência e juventude –, não é o diretor propriamente dito. Mas seu alter ego.

"Discordo, contudo, que seja um filme nostálgico, sobre o passado", afirma Jabor, ao ser indagado sobre o fato de ter optado por falar de tempos idos em seu retorno ao cinema. Logo ele que, em filmes como Tudo Bem, Eu Te Amo e Eu Sei Que Vou Te Amar, parecia estar mais focado no presente, na urgência do momento que o país vivia quando esses longas-metragens foram realizados, nas décadas de 70 e 80.

Dessa vez, Jabor deixou para falar dos tempos atuais em seus polêmicos textos e comentários jornalísticos. E olhar no retrovisor.

Na concepção do cineasta, A Suprema Felicidade, muito mais do que um resgate do passado, da busca de um Rio de Janeiro perdido no tempo, é um filme que tem como fio condutor "A Memória", não à toa título do poema de Carlos Drummond de Andrade, citado nos créditos iniciais do longa: "Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão."

"Como diz o Drummond, eu quis falar das coisas findas. E que são lindas. Senti a necessidade de resgatar o belo em um país onde há tantas coisas feias", provoca Jabor, que cita Marcel Proust e sua obra máxima, a monumental Em Busca do Tempo Perdido.

"Não quero me comparar. Seria muita pretensão. Mas Proust não reconstrói sua história a partir dos grandes eventos, mas dos pequenos detalhes, da madeleine [bolinho típico da confeitaria francesa], o beijo da mãe, as flores do campo. É isso que, de certa forma, tento fazer no filme."

Mercado

Ainda que seja uma superprodução, com centenas de extras, cenários meticulosamente recriados e figurinos luxuosos, A Suprema Felicidade não é um épico histórico. Muito pelo contrário: é uma obra intimista, emocional. Em um momento no qual o ultra-contemporâneo Tropa de Elite 2 quebra recordes de bilheteria no país, falando de violência e corrupção institucionalizada, o filme de Jabor, que chegou neste fim de semana a 170 salas, pode parecer algo fora de sintonia com o que as pessoas desejam ver nas telas.

Jabor espera que não, mas tem consciência de que realizou uma obra autoral, apesar de considerá-la acessível e nada hermética.

"Fiz um filme sobre seres humanos para seres humanos. Estou cansado de robôs, explosões, transformers. Acho que a vida comum das pessoas também é épica, dependendo da interpretação que fazemos do cotidiano. O personagem da mãe [vivida pela atriz Mariana Lima] é uma Penélope, sempre à espera de seu Ulisses", diz

Para que o espectador acredite nas reminiscências de infância e juventude de Jabor, foram necessários mais de três anos de intenso trabalho. A começar pela constatação de que o Rio de Janeiro perdido na memória do diretor está, nas palavras de Jabor, "transfigurado".

Inevitável

E daí chega a pergunta inevitável. Jabor acredita na tal suprema felicidade? O diretor ri. Fala que o título de seu filme contém uma ironia. Para responder, ele cita uma frase do avô de Paulinho, vivido esplendidamente por Marco Nanini: a felicidade existe, dura dez minutos e depois passa.

O jornalista viajou a convite da Mostra.

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