Montgomery Clift foi, ao lado de Marlon Brando e James Dean, um dos melhores e mais intensos atores de sua geração. Mas dava trabalho aos diretores. Bebia, tomava barbitúricos, atrasava-se e sofria muito. Desse sofrimento tirou alguns de seus maiores desempenhos. Um deles é seu trabalho em Freud, Além da Alma, filme de John Huston que está sendo lançado no Brasil em DVD e no qual vive o pai da psicanálise. Sua entrega ao papel é absoluta, comovente, apesar de lhe ter custado caro.
Nem Huston nem o produtor Wolfgang Rainhardt tinham certeza de que Monty, como era chamado em Hollywood pelos amigos, teria estrutura emocional para encarar um papel tão complexo. Desde o grave acidente de carro que sofreu em 1956, no qual quase morreu e teve parte do rosto deformada, sua vida foi alterada. A propensão à bebida tornou-se compulsão. Então vieram remédios para dormir e outros psicotrópicos, além de um comportamento errático, inconstante.
Tudo levava a crer que Clift não daria conta do desafio, mas Huston, que já havia trabalhado com o ator em Os Desajustados (ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe), resolveu apostar em sua intuição: o atormentado galã de clássicos como Um Lugar ao Sol e A Um Passo da Eternidade era seu Freud. De certa forma, o cineasta tinha razão.
A ideia de contar no cinema a história do médico austríaco que revolucionou a psiquiatria surgiu quando Huston rodou um documentário sobre ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial, mental e emocionalmente dilacerados por suas experiências no campo de batalha. Sem nada saber sobre Freud, o cineasta, um homem voluntarioso e explosivo, quando não cruel, decidiu levar às telas os experimentos que conduziram à fundação da psicanálise. Pediu ao escritor e filósofo Jean-Paul Sartre o roteiro, que lhe entregou um calhamaço de 1.500 páginas nas quais nada homossexualidade, masturbação, incesto e outros temas poucos digeríveis ficou de fora.
Huston, ao se deparar com o roteiro gigantesco de Sartre, surtou. Não se conformava, em sua total ignorância sobre Freud, que houvesse tanto sexo na história. Pediu cortes. O francês recusou-se a fazê-los. Mas o script foi reescrito mesmo assim, numa espécie de gambiarra por anos deplorada pelo filósofo, que se recusou a assinar a versão final.
Ainda assim, Freud, Além da Alma é um bom filme, ainda que irregular. Talvez porque Clift tenha se dado ao trabalho de ler a biografia assinada por Ernest Jones e conseguido compreender a complexidade do personagem, que no filme prova de suas próprias teorias, representado por vezes entre o real e o onírico. Huston, possivelmente também purgando traumas passados, fez do set um martírio para Clift, provocando e ironizando o ator, fazendo insinuações sobre sua homossexualidade e sua fragilidade emocional. Ao ponto de Brooks Clift, seu irmão, e a atriz Susannah York, com quem Monty contracena no longa, defenderem a tese de que a morte do ator, em 1966, foi consequência direta desse abuso o astro faria apenas um filme depois de Freud: Talvez Seja Melhor Assim, concluído pouco antes de ele sucumbir a um ataque cardíaco fulminante. Serviço: Freud, Além da Alma (Freud: the Secret Passion. EUA, 1962). Direção de John Huston. Com Montgomery Clift. Drama. 140 min. Versátil Home Video. Preço a definir.



