
Um exposição na Galeria Casa da Imagem reúne cerca de 150 obras, algumas inéditas, de dois artistas emblemáticos da chamada "Geração 80" no Brasil, formada por jovens artistas que renovaram a pintura: o novaiorquino Jorge Guinle (1947-1987), filho do playboy Jorginho Guinle, e o paranaense Raul Cruz (1957-1993).
Com curadoria de Cristiane Silveira, especialista em Estética e Filosofia da Arte e mestranda em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná, a mostra é parte de um projeto mais amplo, denominado A Maioridade dos Anos 80, que inclui um ciclo de conferências com artistas, pesquisadores e críticos de arte prestigiados como Agnaldo Farias, Daniel Senise, Leda Catunda e Ronaldo Brito (leia quadro).
O evento faz parte do projeto Corrente Cultural, uma ação de produtores e promotores culturais do Centro de Curitiba para valorizar a região a partir da promoção de eventos com ingressos gratuitos ou preços reduzidos.
Mas vamos à mostra. O que o curitibano Raul Cruz e o cosmopolita Jorge Guinle, que viveu boa parte de sua vida no Rio de Janeiro, têm em comum? Os dois morreram prematuramente, vítimas da aids, doença que se disseminou na década de 80, e tiveram papel de destaque na contribuição dada à arte brasileira pelos artistas da Geração 80.
"São dois olhares sobre a década de 1980 que se aproximam e se afastam", diz Marco Melo, proprietário da Galeria Casa da Imagem, que, em conjunto com a curadora, uniu parte do acervo dos artistas menos por suas afinidades estéticas e mais por sua relevância na arte brasileira produzida naquele período. "São dois artistas emblemáticos. Guinle estava a anos-luz de tudo o que se fazia no Brasil naquele momento e Raul Cruz foi, sem dúvida, um dos artistas mais importantes que o Paraná já teve", considera.
Vasto mundo
Entre as obras de Jorge Guinle, a mostra exibe, principalmente, desenhos, muitos deles inéditos, já que o artista, que foi extremamente profícuo, ficou mais conhecido por suas grandes telas. Melo conta que, ao realizar uma exposição de Guinle, em 2000, descobriu várias obras sobre papel em que foi possível perceber como "o mundo dele era grande e complexo".
"Guinle foi o artista brasileiro mais culto dos últimos tempos, conhecia tudo de arte", conta Melo, relembrando que o filho de milionário estudou em colégio interno, em Paris, e, nos fins de semana, quando os colegas iam para casa, passava horas enfiado no Louvre.
Em um de seus diários, Guinle escreveu: "Aos 6 anos, conheci Matisse, aos 9, sabia tudo dele". O pintor francês seria uma de suas principais referências, assim como a pop art norte-americana. "Seus desenhos, de grande qualidade, revelam um verdadeiro passeio pela história da arte", diz Melo.
Obra cênica
Se nas obras de Guinle se frui leveza, felicidade, nas pinturas e desenhos de Raul Cruz o sentimento é oposto. "Há uma gravidade, um peso, algo que parece que vai te pegar na esquina", discorre o galerista sobre a obra do artista que ilustrou contos de Dalton Trevisan.
Suas obras têm uma espécie de narrativa, que dialoga com outras artes como a literatura e o teatro Cruz escrevia peças e criava cenários e performances, como as que são lembradas na exposição O Corpo na Cidade A Performance de Curitiba, em cartaz no Solar do Barão. "Isso, de certa forma, ia na contramão da proposta daquele momento de se ater apenas nas formas, nas cores, eliminando toda a narrativa", conta a curadora da exposição.
Ela incluiu na exposição uma série de pintura feitas pelo artista entre 1982 e 1983, que nunca mais foram mostradas ao público após aquele período. As telas de cores constrastantes e muitos detalhes pintadas pelo curitibano no começo dos anos 80 vão dando lugar a uma obra cada vez mais sintética a exemplo dos contos de Trevisan. "Ele sintetiza toda a gravidade de sua obra em uma linha", diz a curadora.
Raul Cruz morreria em 1992, em um período em que a arte do Paraná começava a ser vista fora do estado. "A mostra é uma forma de contribuir para incluir sua obra no contexto da arte brasileira", diz Marco Melo.
Serviço
Jorge Guinle e Raul Cruz: Os Anos 80 na Casa da Imagem. Galeria Casa da Imagem (R. Dr. Faivre, 591), (41) 3362-4455. De segunda a sexta-feira, das 11 às 20 horas, e sábado, das 10 às 14 horas. Até 22 de dezembro.




