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Literatura

Quando o assassino dorme ao lado: por que crimes em família são tão comuns

Criminóloga Ilana Casoy analisa em livro dois crimes que impactaram o cenário policial nacional na última década e busca entender as razões da violência cometida em família

Suzane Richtofen presa após o assassinato dos pais em 2008 | Paulo Pinto/Estadão Conteúdo
Suzane Richtofen presa após o assassinato dos pais em 2008 (Foto: Paulo Pinto/Estadão Conteúdo)

Durante a fase de oitiva de testemunhas no julgamento do homicídio da menina Isabella Nardoni, estrangulada e jogada do sexto andar de um prédio com apenas seis anos de idade, o advogado de defesa dos réus fez uma pergunta a Renata Pontes, delegada do caso: “a senhora não acha estranho um pai matar uma filha?”

A policial experiente que indicava no inquérito a autoria o pai da menina, Alexandre Nardoni, e sua esposa Anna Jatobá respondeu que não. “Acho mais estranho um roubo em que nada foi levado”.

A tese de que um ladrão desconhecido teria entrado no apartamento dos réus e atirado o corpo da menina de um prédio em São Paulo em 2008 já tinha sido afastada pela perícia criminal.

Semanas depois, o júri popular confirmaria a versão da policial: era mais um crime cruel cometido dentro da família. As estatísticas mostram que este tipo de crime é mais comum do que se possa imaginar. No total, 10% de todos os crimes dolosos contra a vida são cometidos entre familiares.

O caso Nardoni e outro assassinato familiar célebre – o duplo homicídio de Manfred e Marísia von Richtofen, planejado pela filha Suzane, são a matéria prima do livro “Casos de Família”, da criminóloga Ilana Casoy.

Ilana tem dedicado as duas últimas décadas para estudar crimes violentos e como funcionam as mentes criminosas que os cometem.

Nos dois casos, ela acompanhou as investigações e expõe no livro sua visão particular através do exame de provas, dos julgamentos, das reconstituições dos crimes e de entrevistas e anotações que fez durante os processos.

Thriller

O texto de Ilana dá um tom de thriller aos dois relatos, ainda que já saibamos como terminam os julgamentos.

“As anotações foram escritas no calor dos fatos e trazem observações daqueles momentos. Eu sou chamada para participar porque consigo ler o processo pela perspectiva humana e não a parte processual e legal que às vezes é muito difícil”, diz a autora.

No relato de Ilana, além de acompanhar o passo a passo das investigações e os julgamentos de dentro, Ilana consegue analisar os motivos que levaram os assassinos a ultrapassar a linha da lei e do sagrado em crimes cruéis contra os próprios pais e a filha.

A autora não tem pudor de expor suas dúvidas ou sentimentos, como quando encontra a turba que hostilizava o advogado do casal Nardoni antes do julgamento.

“É incrível como a população confunde o papel do advogado e o ataca como se ele próprio tivesse cometido o crime. Será mesmo que a sociedade ficaria satisfeita com uma condenação sumária de réus que não teriam direito à defesa em um tribunal do júri?”, questiona.

No livro Ilana ressalta a importância dos peritos criminais que foram fundamentais na resolução dos dois casos e que, no Brasil, trabalham em condições precárias. “São verdadeiros heróis, detetives médicos da vida real que desvendam crimes violentos através da ciência”.

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