
Há pouco mais de 20 anos, quando inaugurou o Solar do Rosário, a diretora do espaço, Regina Casillo, recebia estrangeiros que passeavam pelo Largo da Ordem e queriam ver a "arte colorida" do Brasil. Se deu conta que os visitantes procuravam a arte naïf, que era escassa em seu acervo.
Foi procurar artistas paranaenses ou radicados aqui que trabalhassem com o gênero "ingênuo", produzido com menor preocupação acadêmica, geralmente por autodidatas. Passadas as duas décadas, reuniu em livro o trabalho de sete especialistas na obra Naïf no Paraná, que será lançada hoje.
Constância Nery, Corina Ferraz, Lidia Saczkovski, Mara D. Toledo, Marcelo Schimaneski, Marisa Vidigal e Regina Mehler foram os artistas selecionados por Regina (todos paranaenses ou radicados no estado). O livro traz, além das obras e uma breve biografia de cada representante naïf, texto de apresentação do crítico de arte e professor de História da Arte da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), Fabricio Vaz Nunes.
A busca por artistas locais que trabalhassem com o gênero não foi simples Regina chegou primeiro ao trabalho da paulista Corina Ferraz, que vive em Curitiba desde 1973, tem formação acadêmica, mas optou por trabalhar com naïf.
"Pelas características de etnia e imigração, o Paraná não é um grande celeiro do estilo", diz Regina. "Mas o naïf é brasilidade pura. Trabalha o folclore, me remete muito à poesia de Ariano Suassuna, a música sertaneja", diz.
Para Nunes, que considerou "um desafio" escrever o texto de apresentação, o trabalho lhe deu oportunidade de traçar uma reflexão sobre o naïf, que tem especificidades e características próprias, como a cor vibrante e o uso de temas populares. "O naïf vai receber maior e menor destaque em cada região, sob determinadas circunstâncias históricas. No Paraná, talvez tenha ganhado uma atenção menor. Mas a nossa formação cultural passa pela presença de diferentes povos, então, o Paraná tem diferentes identidades, e a presença desse gênero artístico passa por isso", frisa.
A obra sai com tiragem de 1 mil exemplares e será lançada em Portugal em setembro do ano que vem, numa parceria entre a Editora Juruá e o consulado da Bélgica.
Folclore
É um dos temas mais abordados pelos artistas que trabalham com o naïf. Manifestações populares e religiosas e registros do campo são comuns nas obras, que usam cores vibrantes.
O que é naïf?
Surgida no final do século 19, associado à pintura do francês Henri Rousseau, o termo arte naïf (ingênua, em francês) apareceu quando ocorria uma série de renovações no contexto artístico na França, com a aceitação do impressionismo e as experimentações pós-impressionistas de Van Gogh.
Logo, a "arte infantil" de Rousseau trazia um novo tipo de pintura, e provava que uma expressão original, com desenvolvimento de uma linguagem mais pessoal, era possível.
Braço da arte popular, o naïf nasce, segundo o professor Fabricio Vaz Nunes, sobretudo do artista autodidata que deixa de lado algumas convenções mais comuns na arte erudita, como a preocupação com a perspectiva e a representação anatômica tida como "correta".
Tende, portanto, a uma simplificação da forma.
"Mas não há regras para dizer o que é naïf ou não. É uma criação que nasce fora da institucionalização do conhecimento artístico."
Cores vibrantes e o registro popular da visualidade, com temas folclóricos e religiosos costumam ser os temas trabalhados por artistas que se dedicam ao gênero.
Segundo Nunes, a presença do campo, com a nostalgia pela natureza, é outra marca bastante presente.







