
A competição do Festival de Cannes até pode ter começado morna. Mas, à medida que foi se aproximando do fim, ganhou um gás com grandes nomes e outros nem tanto.
Uma das maiores expectativas desta edição era o 19.º longa-metragem de Pedro Almodóvar, La Piel Que Habito (a pele que habito, na tradução literal do espanhol). O diretor ousou ao escolher o gênero thriller, quase terror, depois de ficar conhecido pelas comédias e passar para o melodrama. A produção marca a retomada da parceria com Antonio Banderas, que o cineasta revelou e com quem não trabalhava fazia 20 anos. E é um papel bastante diferente para o ator, que sempre rendeu seu melhor nas mãos de Almodóvar. Aqui, ele interpreta o cirurgião plástico Robert, capaz de construir uma nova identidade quase do nada, com pele transgênica, e algoz da jovem cobaia Vera (Elena Anaya), presa em sua mansão.
Questões caras ao diretor, como o jogo de máscaras e as questões familiares a mãe (Marisa Paredes) é tão capaz de violência quanto os filhos Robert e o quase brasileiro Zeca (Roberto Álamo) , voltam a aparecer, numa atmosfera mais sombria. O diretor mostra menos carinho do que o habitual por seu protagonista, o psicopata Robert, prejudicando o filme, que foi uma das grandes decepções do festival.
Bem mais jovens, Paolo Sorrentino e Nicolas Winding Refn mostraram mais força do que o veterano espanhol. O diretor italiano, vencedor do prêmio do júri por Il Divo (2008), exibiu seu quinto longa e o primeiro rodado em inglês, This Must Be the Place. Sean Penn encarna um roqueiro de meia-idade, sempre de batom, lápis no olho e cabelo volumoso, anestesiado pela vida, de expressões quase inexpressivas, ainda que tenha uma gargalhada despropositada e fina.
Sorrentino costuma trabalhar num ambiente de estranho artificialismo em que cada detalhe é estudado, mas, ainda assim, não sacrifica a vida dentro do filme. O protagonista Cheyenne deixa a triste Dublin, onde luta contra um trauma, para desbravar a grandiosa e aberta paisagem norte-americana, atrás do nazista que humilhou seu pai, recentemente morto. Ao descobrir a América, encontra a si mesmo.
Se Sorrentino foi aos Estados Unidos com uma produção européia, o dinamarquês Nicolas Winding Refn foi à América para rodar um filme de Hollywood mesmo ainda que o orçamento não tenha nada de Piratas do Caribe. Drive mostra ares vintage, como se fosse um daqueles filmes dos anos 1980 rodado nos dias de hoje. Estiloso, segue o protagonista sem nome (vivido com economia por Ryan Gosling, que quase não tem falas) pelas ruas de Los Angeles. Como diz o título, ele tanto dirige carros de produções hollywoodianas quanto ajuda criminosos na fuga, até tentar proteger Irene (Carey Mulligan) e se meter numa enrascada. Drive é radicalmente violento, mas daquele tipo que provoca gargalhadas e faz o público da sala literalmente vibrar.



