
Um trabalho colaborativo, anônimo e engraçado. Esta é uma boa forma de definir o projeto - com a alma da internet que resultou no terceiro livro da atriz e escritora Maitê Proença, "É duro ser cabra na Etiópia" que será lançado hoje em Curitiba.
No caso deste terceiro livro, o trabalho foi mais o de provocadora e editora, não tanto de escritora. O projeto surgiu depois de uma convocação feita por Maitê pela internet, no fim de 2011. Ela criou um site para receber textos de internautas, mas o material tinha que obedecer a dois critérios principais: ter no máximo 1.500 caracteres e ser engraçado.
"Não sabia aonde isso ia dar porque o conceito que inventei era o de criar a partir de um material sobre o qual não teria qualquer domínio, a não ser o veto da própria seleção. E a partir disso criar uma ordem também cômica, a fim de seguir minhas próprias regras", explica Maitê.
Ela conta que a partir do momento em que convidou Carlos Heitor Cony para participar, a qualidade dos textos melhorou. Ao ver a presença de um medalhão, parece que os participantes resolveram reagir e levantar o nível.
Entrevista
Maitê Proença, atriz e escritora
O título de seu novo livro, conta Miatê Proença, surgiu em uma conversa que ela e seu irmão tiveram no sítio dela, em Petrópolis. Ao falarem sobre as origens do café, que teria sido descoberto na Etiópia por um pastor que viu grãos nas fezes das cabras e as achou mais animadas, Maitê ponderou sobre a rotina de trabalho dos caprinos africanos e achou que dava um título de livro.
Faltava o texto que veio de forma colaborativa na internet. Ela recebeu 1.622 tentativas de amadores e profissionais. Antes de responder a entrevista à Gazeta do Povo, ela deixa a pergunta:
"Você conhece outro livro em que um acadêmico da ABL, ou um escritor internacionalmente premiado participa de um conjunto de textos de humor junto com principiantes, sem que isso pareça uma forçação de barra ou uma proposta condescendente e paternalista?", dispara.
O que te levou a fazer a convocação que resultou no livro?
O título chegou primeiro, ao acaso, no meio de uma conversa. Pensei então em trabalhar com o elemento surpresa, com textos de gente desconhecida. Criei um site para recebê-los e estabeleci regras para que fossem curtos e de humor.
E quanto a forma, como você estabeleceu os critérios?
Criei o limite de 1500 toques. Os textos, poemas, axiomas, aforismos, poderiam ser mais curtos, conter duas palavras - se fossem brilhantes juntas - mas nunca exceder aquele número. E minha missão foi costurá-los numa ordem que os linkasse. Intuí que seria mais gostoso e possível o processo, se eles fossem curtos. E também o fio da meada ficaria mais evidente, para o leitor, do que se fossem longos contos, por exemplo.
Uma das exigências era ser "engraçado". Você é que fez esta curadoria?
Li sozinha (e selecionei) mais de 2000 textos. Porque além dos 1700 que seguiram as regras, havia gente que se excedia nos caracteres e era automaticamente deletada. Mas eu tinha acesso ao material todo, e lia aquilo também, porque algumas vezes o conteúdo tinha boa alma. Nestes casos eu escrevia pra pessoa pedindo que fosse mais sintética, e reenviasse o resultado.
Os bons textos selecionados seriam como grãos aparentes em meio a uma grande massa meio sem graça?
No princípio chegou muita coisa ruim. Através do site eu ia descartando o que não prestava e deixando à mostra o que poderia entrar na edição final. Assim foram chegando os bons autores, que talvez, por cautela, esperassem pra compreender se queriam se ver misturados naquele imbróglio. Não há outro livro do gênero, então as pessoas não entendiam onde estavam se metendo. A seleção dos textos durou mais de ano, até eu considerar que tinha material suficientemente instigante pra fabricar algo de valor.
Trabalhos colaborativos podem dar certo em outras linguagens. Por quê?
Não sei. Esses trabalhos dão trabalho. É um parto nivelar o que chega de origens tão distintas, e conseguir uma unidade. Além do mais, tem que parecer que foi uma moleza para, assim, a leitura resultar em algo delicioso. Por hora fico por conta do livro, que contém textos mas também imagens, e todo um projeto gráfico inusitado. É possível que parta para um segundo agora que peguei a manha...
É duro ser escritora no Brasil?
Se o escritor souber que a Maitê Proença está abrindo espaço para quem não tem acesso a grandes editoras, fica bem mais fácil.



