Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Estreia

Malick busca respostas existenciais em "Árvore da Vida"

Filme foi vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes este ano e não esconde suas altas ambições

Cena do filme "A Árvore da Vida". | Divulgação
Cena do filme "A Árvore da Vida". (Foto: Divulgação)

Em sua interrogação cósmica sobre a origem do universo e o sentido da vida humana, A Árvore da Vida (veja horários das sessões; atenção à data de validade da programação em cinza), vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2011, nunca esconde suas altas ambições.

Não há nada de se estranhar, recordando-se que o diretor Terrence Malick ("Além da Linha Vermelha") é formado em Filosofia pela Harvard e lecionou essa matéria no não menos prestigiado MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachussets.

É um tipo de pensamento filosófico, portanto, que guia este roteiro, assinado como sempre por Malick, que situa em seu centro o personagem Jack (interpretado na maturidade por Sean Penn e na adolescência pelo excelente Hunter McCracken).

A narrativa, em boa parte, é uma viagem às memórias de Jack, que visitam particularmente a infância passada em Waco, Texas - não por acaso, o local onde cresceu o diretor, embora haja controvérsias se ele nasceu mesmo lá ou em Ottawa, Illinois.

Nessa infância, os protagonistas são a mãe (Jessica Chastain), o pai (Brad Pitt) e os irmãos menores, um dos quais morreu adolescente.

Essa morte do irmão assombra Jack e é um dos motores a levá-lo a uma indagação maior sobre o sentido do mundo e a existência de Deus, pois é certamente num mundo impregnado de cristianismo que ele cresceu.

Mas, dentro de seu coração, lutam os dois caminhos que o filme aponta desde o começo como as margens do curso da vida: o caminho da graça (encarnado pela mãe) e o da natureza (simbolizado pelo pai).

Este microcosmo representado por esta família, que é um protótipo da América dos anos 50, mas não só - pode ser vista como um modelo de família de qualquer parte do mundo ocidental - é inserido no macrocosmo do mundo natural.

Assim, as imagens de "A Árvore da Vida" levam não só Jack como todos os espectadores a visualizarem uma viagem no tempo, à origem da vida no planeta, com direito à passagem dos dinossauros (que são os melhores e mais vívidos que o cinema já mostrou, superando com muitas vantagens os de "O Parque dos Dinossauros" de Steven Spielberg).

Em sua parte central, o filme divaga por esplêndidas imagens de natureza, como uma erupção do Etna, as geleiras da Antártida, os oceanos e diversos animais - que alguns jornalistas descreveram ironicamente como "momento National Geographic".

Ironia à parte, essas imagens fazem sentido dentro daquilo a que a história se propõe, reavaliar a trajetória de um homem, um homem qualquer, por suas perguntas sobre si mesmo e sobre a vida. Coisas que um Stanley Kubrick faria, e que Malick executa com maestria semelhante, embora numa chave bem distinta.

Se há um perigo a respeito de "A Árvore da Vida" é ser interpretado como um filme religioso, o que não é - muito embora Malick situe-se em território bem mais espiritualista do que Lars Von Trier e seu "Melancolia".

Sem dúvida, a religião faz parte da própria formação dos personagens - e não se esqueça que Waco foi o palco de uma tragédia de fundo religioso em 1993, culminando com a morte de 76 integrantes de uma seita fundamentalista cristã liderada por David Koresh.

Entretanto, se o filme de Malick tem algum fundo espiritual, ou seja, anseia explorar além da matéria, é muito mais filosofia do que religião. Mas sempre haverá quem pense o contrário, especialmente numa sequência em que Sean Penn revê os personagens de seu passado numa praia. Aí, porém, a psicanálise parece uma referência melhor.

"A Árvore da Vida" é um filme belo, intenso e raro, pelo arco que se dispõe a atravessar, pelas camadas de sentido que suas imagens quase hipnóticas conseguem desdobrar a cada visão - ao mesmo tempo que cria personagens de uma densidade impressionante, capaz de torná-los simbólicos e transcendentes, universais ao menos no hemisfério ocidental.

Uma façanha difícil de igualar, que justifica os longos anos gastos pelo recluso diretor em sua elaboração.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.