De acordo com as regras de etiqueta, o correto é cortar a comida com a mão direita e levar o garfo à boca com a esquerda. O termo roman fleuve surgiu em meados do século 19 para designar, na literatura, uma série de romances interligados como A Comédia Humana, de Honoré de Balzac. Se for servir uma garrafa de Prosecco ao dar um jantar, tenha certeza de que a bebida está na temperatura de 5ºC. As idéias contidas no livro O Fim das Certezas, de Ilya Prigogine, sobre relatividade e física quântica, servem de estrutura para o pensamento no século 21.
É possível que a necessidade de saber coisas tão adversas como as citadas acima coexistam em uma mesma pessoa? A julgar pela recepção dos leitores para Cultura & Elegância (Organização de Jaime Pinsky. Contexto, 240 págs., com ilustrações de Sérgio Kon, R$ 53), sim. Segundo a assessoria da Contexto, uma terceira edição já é preparada. As duas primeiras saíram juntas da gráfica graças ao número de pedidos. São mais de dez mil exemplares vendidos se continuar nesse ritmo, deve aparecer logo entre os mais vendidos. O livro parte de duas propostas interessantes que, à primeira vista, não parecem fazer sentido encadernadas em um mesmo volume.
Ser ou parecer
O fato é que o título do livro diz muito. Cultura & Elegância se dispõe a indicar obras essenciais em literatura (ficção e não-ficção), música (clássica, jazz e MPB), cinema e museus para pessoas que querem ser (ou parecer) cultas, ao mesmo tempo em que dá dicas de como se vestir, para onde viajar, como ser anfitrião e de que maneira se portar à mesa.
O "parecer cultas" se explica porque ler os dez clássicos indispensáveis, indicados por Moacyr Scliar, não é garantia de cultura adquirida. O processo que leva ao conhecimento pode ser lento e difícil. No texto sobre cinema, Luciano Ramos cita a eleição promovida pelo British Film Institute que selecionou os dez melhores filmes de todos os tempos O Encouraçado Potemkin entre eles. Alugar o clássico de Sergei Eisenstein, assistir a ele comendo pipoca, dormir na metade e acordar no fim não vai deixar ninguém culto.
A obra aparenta ser um paradoxo em si mesma: por exemplo, indica Odisséia e Ilíada para um público que, em princípio, não é muito familiarizado com a idéia de cânone literário. O par de obras assinadas por um suposto Homero, escritas em versos, são de leitura difícil. Estudantes que foram obrigados a um corpo-a-corpo com os clássicos gregos em algum momento de sua vida escolar, com freqüência, apelam para adaptações. Porque os originais são capazes de meter medo em um não-iniciado.
"Não é um paradoxo. A idéia é fazer uma média entre o acessível obras fundamentais e tangíveis e o ideal", explica Jaime Pinsky, organizador do livro, autor do capítulo sobre museus e dono da editora Contexto. Ele explica que a proposta, inspirada em um livro alemão de mais de mil páginas dedicado à cultura clássica, é "abrir horizontes", "abrir o apetite das pessoas", e não sentenciar o que deve ser lido e o que não deve.
A brevidade de espaço, mais a proposta do livro, limitam bastante o trabalho dos colaboradores. Carlos Calado tenta dar conta da história do jazz em 13 páginas. Para se ter noção da dificuldade, o americano Ken Burns produziu uma série de documentários que, juntos, somam quase 20 horas e, ainda assim, peca por não poder dar a atenção devida a várias figuras importantes do jazz.
Sugestões
Os textos são bem intencionados, mas é bom ter em mente que eles são como pontos de partida para outras experiências (leituras, filmes, músicas, etc.). Em apenas 16 páginas, Scliar cita mais de 80 obras (sem contar as 80 e tantas que compõem os 17 volumes de A Comédia Humana, de Balzac). Em outros casos, como o de Daniel Piza, as indicações são claramente pessoais fato que o escritor avisa em sua apresentação. Ele sugere a leitura de inúmeros pensadores, de Montaigne a Bernard Shaw, e inclui na lista o livro Waal O Dicionário da Corte de Paulo Francis, sem mencionar o fato de ter sido organizador do volume. Por melhor (ou pior) que tenha sido como crítico, Francis está longe de ser uma leitura essencial. Para Pinsky, Cultura & Elegância tem de ser vista como uma espécie de bússola, apontando um norte em meio a vários outros.



