
No filme Mapa para as Estrelas, o guru Stafford Weiss (John Cusack), espécie de massagista-terapeuta autor de livros de autoajuda, solta a frase: “Aquilo que você consegue nomear, você consegue dominar”. Ele está falando de traumas de infância – usando uma noção meio psicanalítica –, mas a frase serve como luva para o filme de David Cronenberg.
O diretor canadense é daqueles cineastas com sobrenome-adjetivo: Almodóvar, Lynch, Spielberg, Tarantino.
Se alguém diz “Cronenberg”, você pensa em personagens deformados física e psiquicamente (A Mosca, Crash, Cosmópolis), relações bizarras com máquinas e objetos (Videodrome, Gêmeos – Mórbida Semelhança, eXistenZ) e sanguinolência (Scanners – Sua Mente Pode Destruir, Senhores do Crime, Marcas da Violência).
Com uma filmografia dessas, a estreia de um Cronenberg é, merecidamente, um evento. Pode não ser seu tipo de filme, daí são outros quinhentos.
As deformações e bizarrices estão lá, em Mapa para as Estrelas, mas não são visíveis como em outros filmes. Elas são inomináveis (o que torna difícil dominá-las) e, no entanto, continuam assustadoras e repugnantes.
O filme começa com a chegada da jovem Agatha (Mia Wasikowska) a Los Angeles. Ela aluga uma limusine para fazer um “roteiro das estrelas”, passando por casas de famosos. Esse objetivo raso esconde intenções bem complexas.
Agatha tem uma ligação obscura com a família do guru Stafford e se aproxima dele trabalhando como assistente de uma de suas clientes, a atriz Havana Segrand (Julianne Moore), uma mulher alucinada pela ideia de viver no cinema o papel que lançou sua mãe. O enredo trata das relações entre pais e filhos e ganha contornos mitológicos, envolvendo incesto e destino.
Cronenberg ambienta a ação em Hollywood, mas a indústria do cinema é apenas um cenário. O que interessa a ele é o quanto ser humano implica em anomalias, obsessões e cicatrizes (metafóricas e não).



