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Celebridade

Meditação transcendental

 | Antonio Pita/EFE
(Foto: Antonio Pita/EFE)

Entrevista com David Lynch - Cineasta

O homem que transformou o cinema em uma alucinante mistura de tempo, espaço, sexo e morte está no Brasil. O cineasta David Lynch desembarcou no Rio de Janeiro no último domingo, iniciando um périplo que, até o próximo sábado, vai passar por São Paulo e Belo Horizonte. O motivo da viagem não é um filme, mas um livro: Em Águas Profundas – Criatividade e Meditação, que a editora Gryphus lança nesta semana.

Trata-se de uma série de capítulos curtos (alguns no formato de pílulas) em que o criador de Veludo Azul e Império dos Sonhos revela as influências da prática da meditação transcendental em sua vida e obra. Lynch tornou-se adepto da prática na década de 1970, antes de se tornar diretor.

A aproximação veio com o interesse pelo movimento espiritual criado pelo guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, que seduziu outros simpatizantes como os Beatles. Inicialmente cético, Lynch cedeu à experimentação em 1973, convencido pela irmã. Ao lado de uma orientadora que se parecia com Doris Day, ele tomou conhecimento de um mantra, que deveria ser repetido em duas sessões diárias de 20 minutos para atingir um estado de "alerta descansado". "Foi como se estivesse em um elevador cujo cabo se rompesse de repente", escreve, no livro. "Caí direto na mais pura felicidade."

A meditação, confessa, tornou-se um método eficaz para acalmar sua intensa inquietação, além de exorcizar demônios internos que, como bem sabem seus fãs, se transferiram para o cinema. Intuitivo, Lynch relata sua paixão pelas histórias impregnadas de abstração.

Aos 62 anos e ainda fiel ao cabelo aparado rente dos lados e muito crescido no topo, Lynch não acredita no futuro do cinema – para o homem que criou imagens alarmantes, com lógica onírica, mudança de identidades e erotismo que transgride normas, o caminho está na internet. É o que ele comenta na seguinte entrevista, realizada por telefone.

Qual proveito que meditação transcendental lhe trouxe?

David Lynch – Trata-se de uma técnica mental. Ela abre portas para o nível mais profundo da sua vida, onde navegam inúmeras sensações. Quando você atinge esse nível, quando você realmente transcende, descobre uma região de criatividade, amor, paz e inteligência infinitas, algo capaz de melhorar sua vida. Cresce a disposição para realizar coisas, pois o negativismo praticamente desaparece. Isso é importante pois, para mim, o pessimismo é inimigo do artista. Ao transcender, diminui a sensação de depressão, medo, tristeza e é possível trabalhar com a mente aberta. Nesse estágio, você consegue utilizar todo seu potencial, pois dispõe de mais compreensão e entendimento de tudo.

Mas o senhor consideraria o cinema como uma diversão que provoca algum tipo de desligamento da mente?

Para mim, cinema é a criação de um mundo no qual desfrutamos uma série de experiências. Trata-se de um mundo que oferece uma infinidade de possibilidades porque a linguagem cinematográfica é mágica. E, como cada cineasta usa sua criatividade de uma forma distinta, cada um também constrói um mundo diferente. Nesse caso, há experiências melhores que outras O cinema pode abstrair, mas não acredito que consiga fazer alguém transcender. Para mim, o cinema deveria conduzir o público a níveis mais profundos e abstratos, dar indicações de caminhos ocultos, mas não conseguiria transcender.

Isso aconteceria porque atualmente o público de cinema diminuiu sua capacidade de pensar, especialmente por conta do excesso de filmes que oferecem apenas diversão?

Entendo o que você quer dizer, mas o ser humano é naturalmente dotado de sensibilidade. O problema é que a maioria dos filmes atuais é superficial, eles não exigem uma grande capacidade de compreensão. As tramas não oferecem provocações, apenas diversão. Quando se deparam com filmes mais densos, muitas pessoas sentem-se perdidas por não compreender, mas garanto que elas entendem mais do que realmente imaginam.

Uma de suas melhores obras, Twin Peaks, foi criada para a TV. O senhor pretende retornar para a televisão?

Não, pois o futuro é a televisão de internet. Já está chegando. A TV que hoje conhecemos está condenada, assim como filmes realizados para salas de cinema e DVDs. Hoje temos de pensar no formato de internet e é o que pretendo fazer com meu trabalho.

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