
Uma senhora idosa recorda cantando o terror que vivenciou durante a ditadura no Peru. Ela foi estuprada e seu marido, assassinado. Sua filha Fausta, vivida pela expressiva atriz Magaly Solier, lamenta-se com ela em cantos que são quase uivos.
As duas mulheres, ligadas pelo sangue e pelo medo que carregam nas entranhas quase que literalmente , se separam ali, com a morte da mãe.
A cena, incômoda, antecede os créditos que iniciam o filme La Teta Assustada, segundo longa-metragem da diretora peruana Claudia Llosa, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano e exibido na última terça-feira no 37º Festival de Cinema de Gramado. Sua estreia no circuito comercial deve acontecer no mês que vem.
Começa, então, a saga de Fausta para realizar o desejo da mãe de ser enterrada no vilarejo natal local em que as pessoas, para não enfurecerem as almas tristes, andam grudadas às paredes. Sem dinheiro para transportar o caixão antes do casamento da prima, uma exigência do tio, ela consegue um trabalho como copeira na casa de uma pianista endinheirada em plena crise criativa.
Fausta sofre do mal da "teta assustada", que é como o povo nomeou o medo paralisante que dizem ser transmitido pelo leite materno aos filhos de pessoas que vivenciaram os horrores da guerrilha peruana. Ela nunca saiu de casa sozinha, e agora terá que enfrentar o convívio com os homens que associa ao abuso sexual, a ponto de introduzir uma batata, ícone peruano, na vagina como barreira para os agressores. "Só o nojo detém os nojentos", justifica.
Será pelo canto, utilizado como forma de controlar o medo, que poderá conquistar o direito de enterrar a mãe e, assim, exorcizar a doença que a impede de viver. As músicas da personagem de Magaly, cantadas em quéchua, língua original dos povos andinos, enriquecem uma narrativa que abusa de metáforas para falar dos sentimentos de um povo reprimido e, que, justamente por ser reprimido, só se expressa pelo inconsciente.
Pode-se dizer, sim, que La Teta Assustada é um filme feminino, pois toca com extrema sensibilidade e delicadeza de mulher em uma questão regional as sequelas de um povo massacrado pela ditadura que se universaliza e provoca forte sentimento de identificação. O medo agudo da personagem é semelhante ao de milhares de mulheres pelo mundo que sofreram os abusos cometidos em guerras: perderam suas famílias, suas casas e foram estupradas.
Houve quem dissesse que o filme só foi premiado em Berlim por conta da solidariedade feminina da atriz Tilda Swinton que liderou o júri do festival. Que seja. É perfeitamente natural que um filme produzido essencialmente por mulheres, da direção à trilha sonora, atraia a sensibilidade feminina.
O viés feminista em um filme que se foca na angústia de uma só garota para tratar de aspectos da história de todo um país passa longe de ser engajado. E não é assim que se faz verdadeiro cinema? Explorando o particular para atingir o universal?



