
É duro ser um símbolo inquestionável de beleza. Dizem ser como viver numa bolha, flutuando pelo mundo. Protetora, porém transparente. Todos olham, admiram, desejam. Mas poucos se dão trabalho de ir além do visível. A embalagem sempre acaba contando mais do que o conteúdo. Até que a data de validade vence e essa bolha simplesmente estoura, como se fosse de sabão.
Na última entrega do Oscar, Michelle Pfeiffer, uma das mulheres mais belas do cinema das décadas de 80 e 90, foi encarregada de falar sobre Jeff Bridges, vencedor da estatueta de melhor ator do ano por Coração Louco e com o qual ela contracenou no ótimo Susie e os Baker Boys. Irônico. Aos 60 anos, Bridges está no auge. Aos 51 anos, Michelle luta para não ser esquecida. Teria a bolha de sua beleza "vencido"?
A última tentativa da estrela de filmes importantes como Scarface (de Brian de Palma), A Época da Inocência (de Martin Scorsese) e de Ligações Perigosas, talvez seu melhor trabalho como atriz de cinema, foi, por coincidência ou não, sob a batuta do diretor deste último longa, o britânico Stephen Frears. Chama-se Cheri e é um bom filme. Não excelente, Nem memorável. Mas competente: tem um roteiro correto, condução segura de Frears e uma atuação igualmente satisfatória de Michelle.
O longa conta a história da cortesã Léa de Lonval, uma mulher madura que inicia o jovem Cheri (Rupert Friend) nas artes do amor no início do século 20. O aprendizado é doce, intenso, mas sem futuro. Chega a hora de o rapaz ganhar o mundo, colocar em prática o que aprendeu nos braços de Léa e se envolver com moças de sua idade. Quanto a Léa, bem, resta-lhe conformar-se. E não é exatamente isso que ocorre.
É irônico que Michelle Pfeiffer em praticamente todos os seus últimos trabalhos, filmes esquecíveis e realizados fora dos grandes estúdios, viva "mulheres belas" de certa idade que se envolvem com homens mais jovens; É como se os produtores estivessem bradando a surdos: "Ela envelheceu, mas continua linda. Veja só o garotão com quem está contracenando!".
Pobre Michelle. Ela é tão mais do que a tal bolha onde a confinaram, que apenas resta a seus admiradores (entre eles, o autor deste texto) esperar que, como Jeff Bridges em Coração Louco, ela tenha a chance (ou sorte) de encontrar um grande papel, à altura de seu talento e não medido a partir de sua beleza mítica, porém mutável. Uma mulher com uma história interessante, que mereça ser contada. Se Meryl Streep consegue ser rainha das bilheterias aos 60 anos, talvez ela seja perdoada por ser linda demais, e consiga ser vista também como a competente atriz que sempre foi. Não foi com Cheri que conseguiu. GGG



