
Recomendado por Álvaro Lins, meu primeiro livro (Interpretações, 1946) apareceu com o selo prestigioso da Editora José Olympio, antonomásia, àquela altura, de literatura viva: sua logomarca representava uma garantia de qualidade, tanto para consagrados quanto para estreantes.
Em carta de 11 de maio de 1944, dizia-lhe eu ter sentido "talvez um pouco cedo", a vontade de reunir em volume os primeiros artigos de crítica, consultando-o sobre as "condições em que essa publicação poderia ser feita". A resposta veio oito dias depois: "Pode mandar os originais do seu livro. Assim terei tempo de editá-lo. Edição de mil exemplares, direitos autorais de 10 % do preço da capa. Serão feitos mais 200 exemplares para propaganda. Deles 10 serão destinados ao autor. Pode articular-se diretamente com meu irmão Daniel. Ele olhará o seu texto e fará com que ele seja publicado ainda este ano".
A casa, como a chamava José Olympio, era conhecida pela demora entre a entrega dos originais e a publicação, prazos que sempre parecem excessivamente longos para os autores aflitos.
Assim, voltei a escrever-lhe a 1º de outubro de 1945: "Não sei de pode calcular o meu estado, à espera da publicação do livro que há mais de um ano lhe enviei, cujas provas foram revistas em novembro e do qual não tenho notícias". Afinal, as boas novas foram anunciadas pelo cartão de 2 de outubro de 1946: "Vamos providenciar agora a impressão do seu livro. Chegou a hora dele. Daniel vai escrever-lhe".
Quando Interpretações ficou pronto e fui à sede da Editora, na Rua do Ouvidor autografá-lo para a imprensa, Daniel Pereira me aconselhou: "Agora desça à livraria e distribua alguns livros aos escritores que encontrar lá. Não há melhor propaganda". Foi o que fiz. Ao ver Graciliano Ramos [...] ele recebeu o livro, deu uma olhada, puxou do bolso um pente e começou a abrir as páginas. Em seguida me olhou e disse: "Outro dia vivi um constrangimento danado. Um amigo meu passou lá em casa, apanhou na estante um livro que escrevera e verificou que estava fechado. Desde esse dia a primeira providência que tomo é abrir cuidadosamente qualquer livro que recebo".
Houve também na história dessas relações, a grande crise provocada pela Memórias do Cárcere. Sabia-se que o PCB exerceu forte pressão sobre a família de Graciliano Ramos para impedir-lhe a publicação, acabando por aceitá-la à custa de cortes textuais e correções cuja verdadeira extensão jamais saberemos. Nas idas e vindas entre a família e os censores do Partido, resultaram, pelo menos, três "originais", datilografados e redatilografados ao sabor das exigências impostas. Supõe-se que o último deles recebeu o imprimatur canônico, acontecendo, apenas, que, na confusão inevitável de tantos "originais", as páginas escolhidas para ilustrar os volumes diferiam sensivelmente das impressas, suscitando dúvidas quanto à respectiva autenticidade.
Denunciei o fato em O Estado de S. Paulo, daí resultando os violentos ataques com que me mimosearam os porta-vozes oficiosos do Partido, o que, de resto, confirmava que, efetivamente, tinha havido censura. Como é natural, o episódio magoou José Olympio, ele próprio ludibriado por tantas manipulações. Anos depois, Ricardo e Clara Ramos, filhos de Graciliano, confirmaram em livros convenientemente abafados, que, de fato, o texto autêntico tinha sido adulterado por imposição do Partido.
A longo prazo, as relações se normalizaram entre José Olympio e eu mesmo, que continuei a visitá-lo pelos anos afora quando vinha ao Brasil nas férias acadêmicas, sempre recebido com a maior cordialidade nos inesquecíveis almoços das sextas-feiras.
Wilson Martins é crítico literário e colunista da Gazeta do Povo.



