
Em 2009, o cinema francês foi o terceiro mais visto no Brasil. Depois do norte-americano e do nacional. Pena que esse aparentemente elevado posto no ranking não seja exatamente uma boa notícia. Mas, sim, mais um argumento contundente na constatação de que nosso mercado exibidor está ainda muito longe de ser diverso, plural.
Vamos aos números. O longa-metragem mais visto no Brasil em 2009 foi A Era do Gelo 3, com 9,28 milhões de espectadores, seguido de longe pelo filme brasileiro mais assistido do ano (e da chamada fase da Retomada): Se Eu Fosse Você 2, com 6,1 milhões de ingressos vendidos. Sabe qual foi o título francês mais assistido no mesmo período? O vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2008, Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, com perto de 140 mil pagantes, um pouco à frente de Coco Antes de Chanel, de Anne Fontein, que levou 124 mil aos cinemas.
Os números obtidos pelas produções francesas não são desprezíveis, mas não é preciso ser matemático ou estatístico formado em Harvard para perceber o verdadeiro abismo que separa o chamado cinema comercial, sobretudo o hollywoodiano, de obras de viés mais autoral.
Em entrevista concedida no Rio de Janeiro semana passada, Régine Hotchondo, diretora geral do Unifrance, órgão estatal que se ocupa de assuntos relacionados ao cinema na França, disse que existe o esforço de aproximar a produção de seu país da brasileira. Para isso, foi assinado em maio último, no Festival de Cannes, um acordo de coprodução entre os dois países.
O documento poderá viabilizar a realização conjunta de projetos, mediante intercâmbio de profissionais, tanto no âmbito artístico quanto técnico. Também prevê a ampliação dos canais de distribuição e exibição dos títulos produzidos em ambos os lados do Atlântico.
O fato é que, sobretudo no âmbito da exibição, a realidade francesa se distingue de maneira radical da brasileira e tem muito a nos ensinar. No Brasil, é muito limitado o espaço tanto para filmes nacionais, à exceção dos títulos com a chancela da Globo Filmes, quanto para produções realizadas fora de Hollywood. Na França, o cenário é outro.
Orgulhosos de serem "exceção cultural", os franceses resistem diante do poder hegemônico dos grandes estúdios norte-americanos. O cinema dito comercial até domina o crescente circuito dos multiplexes, avanço que prejudica muito a produção local, mas o governo da França faz questão de garantir mercado exibidor para filmes nacionais e também de outras cinematografias, como a europeia, a asiática e a latino-americana.
Régine conta que, dentre os 5 mil cinemas existentes no território francês, em torno de 1,5 mil são as chamadas salas ligadas à Associação Francesa de Cinemas de Arte e Ensaio (A.F.C.A.E.), reservadas à produção autoral. Esses espaços, em geral de rua e fora dos shoppings, recebem subsídios do governo e não podem ser vendidos ou fechados para mudar de ramo. A certeza da sobrevivência dessa rede faz com que a produção francesa, mesmo em tempos de crise econômica, resista e encontre seu público. É uma lição e tanto que poderíamos muito bem adaptar por aqui.



