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Idéias

Mistérios e paixões do leitor jovem

Sting: sem dom para as rimas | Arquivo Gazeta do Povo
Sting: sem dom para as rimas (Foto: Arquivo Gazeta do Povo)

O escritor J.D. Salinger deu a Holden Caulfield a fantasia de ser O Apanhador no Campo de Centeio, uma figura que impede crianças de cair em um penhasco. Faz mais de meio século que Holden "apanha" leitores, tornando-se um marco da literatura "jovem".

Ou, ao menos, costumava apanhar.

De 1951, quando o livro saiu pela primeira vez nos Estados Unidos, até hoje, a juventude virou o centro do universo e existe muitos interessados em ganhar a audiência desse público.

Assim como em outras áreas, a literatura se apressou para criar itens pensados exclusivamente para "consumidores" na faixa etária dos 13 aos 20 e muitos anos (embora seja bem complicado delimitar o alvo, já que idade não é pré-requisito para se ler um Harry Potter, por exemplo).

A relação dos jovens com a literatura, quando existe, costuma vir com rótulos pouco simpáticos. Como você imagina um garoto de 15 anos que adora ler? Tímido, nerd, incompreendido, inteligente, de óculos e sem namorada nem amigos? Se respondeu sim, você pactua com uma sociedade que forma, nas palavras da professora Marta Morais da Costa, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), "adolescentes imaturos e desequilibrados".

Para mudar essa constatação, é preciso entender que a leitura é um instrumento de aperfeiçoamento. "Tenho certeza de que ler a literatura abre a compreensão para as relações humanas e internas de cada indivíduo", diz Marta.

Elisa Dalla Bona, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sugere uma reavaliação de valores. Em meio aos adolescentes – e não só entre eles –, se costuma valorizar um tênis de marca ou um equipamento eletrônico de último tipo. "Mas não quem tem uma conversa intelectualizada, que aí sim é esnobe e chato", afirma Elisa.

Um problema

"No Brasil, mais hedonista, mais informal, mais corpo do que mente, talvez a leitura tenha essa carga negativa. Mas na Argentina? Em Israel? Acho que não", argumenta Marcelo Carneiro da Cunha, autor dos livros Simples e Duda.

Escritor e colunista da Gazeta do Povo, Miguel Sanches Neto lembra que ler significa se isolar, ter um tempo sozinho para conviver consigo mesmo. "E o brasileiro tem uma identidade externa e coletivista – a festa, o futebol, o bar."

Esse temperamento nacional pode ser um dos fatores que afastam os jovens da literatura – inclusive aqueles que começaram bem, lendo na escola e em casa por meio de estímulos adequados.

"Na infância, a leitura é socializadora. Lê-se na escola, coletivamente. Na juventude, os interesses jovens passam por espaços coletivos que não prevêem a leitura. Encaminham-se para a leitura aqueles que estão descontentes com o mundo à sua volta, aqueles que sonham com outro mundo, que só é possível habitar pela literatura", acredita Sanches Neto.

Levado por outros interesses, ligados ao grupo com que se identifica, o jovem pode criar uma noção bizarra, relacionando a leitura literária à infância – ainda mais quando não vêem os pais lendo e não têm acessos a livros em casa. Sobra a leitura obrigatória, parte da rotina de estudante.

Nesse ponto, é inegável a responsabilidade dos pais.

Embora os profissionais ouvidos pela reportagem admitam que a lógica do "filho de peixe" não é regra para a leitura – é possível pais que não lêem criar filhos leitores –, todos concordam que o exemplo dentro de casa pode ser determinante e tornar a relação com os livros mais fácil.

Sanches Neto defende uma idéia interessante de que a leitura não é só uma questão de educação, mas também vocacional. "Pense a leitura como o futebol. É possível um jogador fazer de seu filho um grande jogador? Em alguns casos, sim. Na maioria, não."

Se não encontram referências na família e não se sentem capazes de selecionar leituras que lhe interessem, os jovens que ouvem a palavra "ler", entendem "estudar". E a literatura vira só mais uma lição de casa.

"Raramente os alunos são aproximados da leitura por prazer, como lazer, como encantamento, como forma de nos conhecermos melhor e o mundo que nos cerca. As obrigações escolares, em geral, matam o desejo de ler", diz Elisa.

A leitura literária na escola é tema de Andar Entre Livros, de Teresa Colomer (confira entrevista com a autora na página 3), lançado há pouco pela editora Global.

"Ler é uma responsabilidade de toda a sociedade. Pais indiferentes e hostis mereciam cadeia. São criminosos intelectuais", sentencia Marta. "Quem foi iniciado na leitura que absorve e tem utilidade interior, não deixa de ler por nenhum desses motivos."

No embate hipotético entre um leitor e um não-leitor, enquanto o segundo tem reflexos ótimos – parece capaz de desviar qualquer investida contra si – , o leitor sobe ao ringue com a convicção de que a leitura o torna imbatível. Não é difícil prever que ambos têm pontos fracos.

Marta observa que a leitura de livros não cura males sociais, mas pode ajudar a perceber as diferenças entre uma vida infeliz e a possibilidade de recomeçá-la e torná-la melhor em qualquer tempo.

"A leitura não torna as pessoas melhores e, na maioria das vezes, é só lazer. Nesse contexto, ler um livro não é tão diferente de ver um filme", diz Thiago Tizzot, autor de O Segredo da Guerra, uma narrativa de fantasia – gênero com freqüência relacionado ao público jovem.

Para Sanches Neto, se trata de uma atividade "supervalorizada em todos os níveis, tanto pelos que lêem quanto pelos que não lêem". Na sua opinião, não se pode vê-la como a salvação do mundo. "A leitura não liberta. Escraviza. Faz com que nos tornemos avessos às ilusões existenciais, como o consumo", explica, voltando ao tema que abordou em Herdando uma Biblioteca.

A literatura é, em qualquer fase da vida, "apenas" uma maneira extraordinária de viver, enxergar o mundo e se relacionar com as pessoas.

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