
Das oito da manhã às cinco da tarde, o analista de sistemas Wilson Mugnaini trabalha na área de suporte à infraestrutura de informação de uma multinacional norte-americana. Se um computador do sistema da empresa falhar na Rússia, na China, no Alasca ou no Paraguai, é possível que a solução parta da máquina de Mugnaini, no centro de Curitiba. Ou, dependendo do horário, do computador de um colega seu na Malásia, onde outra unidade da companhia assume as tarefas quando a noite cai no Brasil. "Às 20 horas, todos os processos são repassados aos malaios. Enquanto a gente dorme, eles trabalham, e vice-versa."
É com alguma estranheza, portanto, que Mugnaini reage ao ouvir um termo que ganhou manchetes a partir de janeiro, quando o primeiro-ministro britânico afirmou que o mundo estaria sofrendo uma "desglobalização". "Acho que desglobalizar mesmo, para tudo, não vai, não. Estranho imaginar um mundo onde os países não dependam uns dos outros."
O premier Gordon Brown tinha seus motivos para usar a controvertida expressão. Intimidado pela crise, o comércio internacional deve encolher em 2009, algo inédito nos últimos 27 anos. Uma retração próxima de 10%, a mais forte desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC). A reboque, vem a ameaça de uma onda de protecionismo comercial: de acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), 17 integrantes do G-20 o grupo das 20 maiores economias do mundo já adotaram medidas protecionistas como reação à crise.
"Muitos empregos relacionados ao comércio estão sendo perdidos. Governantes podem tentar evitar que a situação piore adotando medidas protecionistas, que na realidade não protegem qualquer nação e podem causar a perda de mais empregos", afirmou o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, em relatório de estimativas da organização. Para ele, quem restringir importações apenas estimulará seus parceiros a reagir da mesma forma.
Até os adeptos do movimento antiglobalização parecem confusos. Não se sabe se, em suas manifestações, estão festejando a desgraça do inimigo ou protestando contra a massiva extinção de empregos que a própria globalização havia ajudado a criar.
Debate
O conceito de globalização varia conforme a fonte e, portanto, não há consenso sobre o que seja a tal desglobalização, se ela está de fato ocorrendo e até mesmo se é boa ou ruim. Ao contrário de Gordon Brown, o economista filipino Walden Bello vê no retrocesso da globalização algo saudável, pois ajudaria as economias nacionais a "retomar seu objetivo principal" produzir para o mercado interno e se livrar dos "caprichos da economia global".
Autor do livro Desglobalização: Ideias para uma Nova Economia Mundial, lançado em 2002, Bello usou recentemente o exemplo de que, sem a globalização, a crise iniciada nos Estados Unidos não teria se alastrado tão rápido. O mesmo raciocínio parece válido para explicar o avanço da dita "gripe suína" ou, pelo menos, a disseminação mundial do pânico em torno da doença.
No outro extremo, uma matéria da revista britânica The Economist atribuiu à globalização o forte crescimento dos países emergentes nas últimas duas décadas. Neste ano, suas economias devem crescer, em média, 5,3 pontos porcentuais acima do índice dos países desenvolvidos, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 1991, as taxas de expansão de "ricos" e "pobres" eram idênticas.
"Tentar reverter um processo estabelecido e voltar a se fechar é bobagem", diz Renato Baumann, diretor da Cepal no Brasil. "É por meio do comércio que se tem acesso às melhores práticas de gestão, ao avanço tecnológico, a melhorias na qualidade dos produtos e serviços. O que se deve é buscar formas eficientes de inserção no mercado internacional, que permitam o aumento dos fluxos de renda do país, o progresso tecnológico e assim por diante."
Para o economista Rodolfo Prates, professor da Universidade Positivo e do Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão (IBPEX), a crise global permitirá que finalmente se teste as teorias favoráveis e contrárias à globalização. "No papel, é fácil afirmar que ela favoreceu poucos países e classes sociais, marginalizando os demais. E há quem afirme o contrário. Agora veremos qual lógica se sustenta. Não estamos mais trabalhando em um laboratório, estamos assistindo à História submeter a teoria à prática."




