
O diretor e crítico francês Eric Rohmer, cuja morte foi anunciada anteontem em Paris, é um dos nomes fundamentais da Nouvelle Vague, movimento que alterou não apenas a forma de fazer filmes, mas também de pensar o cinema, o legitimando como uma linguagem artística.
Com mais de 50 filmes no currículo, Rohmer foi considerado por muitos críticos o mais conservador do grupo do qual também fizeram parte nomes consagrados como François Truffaut (Os Incompreendidos) e Jean-Luc Godard (Acossado). Todos iniciaram suas carreiras como críticos de revistas especializadas como Arts e Cahiers du Cinéma, no fim dos anos 50, para logo depois começarem a fazer seus próprios filmes.
Ex-romancista e professor de Literatura Francesa e Alemã, Rohmer era um apaixonado pela palavra. Escrita ou falada, não importava. Seus escritos sobre diretores como Alfred Hitchcock e Howard Hawks, publicados pela Cahiers du Cinéma, são considerados antológicos, pois revelam sentidos nas obras desses grandes gênios do chamado cinemão até então não percebidos pela crítica.
Esse apreço pelo texto e pelo verbo, no entanto, se mostrou com o tempo uma desvantagem em um momento no qual seus contemporâneos buscavam justamente fugir das adaptações literárias (e literais), onipresentes na produção francesa pré-Nouvelle Vague, para desenvolver uma abordagem cinematográfica mais visual, que rompesse com a linearidade narrativa, quebrando o paradigma da montagem do cinema clássico.
Em pronunciamento feito segunda-feira, o presidente da França Nicolas Sarkozy disse: "Clássico e romântico, sábio e iconoclasta, leve e sério, sentimental e moralista, ele criou o estilo Rohmer que sobreviverá a ele". Sarko, como é chamado por seus conterrâneos, tem razão. Rohmer era um autor em constante dilema e contradição.
Nos Estados Unidos, onde a Nouvelle Vague teve grande impacto em Hollywood, alterando o estilo de vários diretores a partir dos anos 60, o filme de Rohmer mais lembrado e cultuado até hoje é Minha Noite com Ela, drama em preto e branco de 1969 situado na cinzenta cidade industrial de Clermont-Ferrand, no centro da França. Conta a história de um engenheiro jovem e tímido (Jean-Louis Trintignant, de Um Homem e Uma Mulher) que passa, por conta de uma nevasca, a noite na casa da amante de seu melhor amigo, uma divorciada atraente e liberal, vivida pela bela Françoise Fabian. O filme recebeu uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
Rohmer filma esse encontro em uma série de tomadas longas, que permitem aos personagens divagar sobre temas que passam pela filosofia, religião e moralidade. As palavras vale lembrar aqui a paixão de Rohmer pelo uso da palavra vertem da tela e assumem caráter ambíguo, denunciando um sutil clima de sedução entre os dois personagens principais. E denunciam o conflito que se desenha na tela.
Minha Noite com Ela é o terceiro filme da série Seis Fábulas Morais, iniciada em 1963 com A Carreira de Suzanne, mas foi a quarto a ser rodado. Em cada episódio, um homem casado ou comprometido se vê tentado a cometer alguma modalidade de traição, conjugal ou não. Mas o que as histórias têm de mais original é o que não acontece, ou está na iminência de ocorrer, mas não se consuma.
No set, Rohmer, um homem alto, de olhos azuis penetrantes, era um diretor de poucas palavras, mas que rodava seus filmes com rapidez, sempre de olho no próximo projeto. Em sua vida particular, era recluso, quando não misterioso. "Eric Rohmer" era, na verdade, um pseudônimo, um entre vários que "experimentou" no início da carreira. Seu nome de batismo seria Maurice Henri Joseph Scherer e teria nascido em Tulle, cidade do sudoeste da França, no dia 21 de março de 1920 portanto, faria 90 anos em 2010. Outras fontes afirmam que seu nome era Jean-Marie Maurice Scherer e sua cidade de nascimento seria Nancy, no outro lado do país. Era mesmo um homem de opostos.





