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Literatura 1

Morte e mistério na região do Culuene

Antonio Callado viajou para o Mato Grosso acompanhando o filho do coronel britânico assassinado por índios e contou a história em Esqueleto na Lagoa Verde

O sertanista Orlando Villas Boas (à direita), integrante da expedição com Antonio Callado | Arquivo da Família Villas Boas
O sertanista Orlando Villas Boas (à direita), integrante da expedição com Antonio Callado (Foto: Arquivo da Família Villas Boas)
A suposta ossada de Fawcett era, na verdade, de um homem mais baixo |

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A suposta ossada de Fawcett era, na verdade, de um homem mais baixo

Assis Chateaubriand (1892-1968) era um sujeito esperto como poucos e sabia vender jornal como ninguém. Em abril de 1951, descobriram uma ossada no Mato Grosso e se apressaram em dizer que era do coronel Percy Harrison Fawcett (1867-1925). Chatô transformou a história em notícia e fez um carnaval sobre o fato.

No ano seguinte, o magnata da imprensa brasileira – cabeça dos Diários Associados – preparou uma expedição para visitar a região do rio Culuene e conversar com os índios que teriam assassinado Fawcett, o explorador britânico que palmilhou florestas brasileiras em busca de uma cidade perdida, citada num documento feito por bandeirantes em 1753.

Dizem que, para dar credibilidade à expedição, Chatô convidou um jornalista da concorrência, Antonio Callado (1917-1997), que trabalhava no Correio da Manhã, além de contar com a ajuda do sertanista Orlando Villas Boas (1914-2002). Entre a descoberta e a viagem para o Mato Grosso, os ossos foram enviados à Europa para serem analisados.

Quando Callado embarcou no avião, todos já sabiam que os restos mortais encontrados não eram de Fawcett, mas de alguém quase 20 centímetros mais baixo. Num primeiro momento, esse era o motivo principal da viagem. Quando laboratórios europeus derrubaram a teoria, um jornalista preguiçoso talvez não saísse da redação, mas Callado viajou mesmo assim e criou um clássico, Esqueleto na Lagoa Verde, reeditado na coleção Jornalismo Literário com um bom material extra, incluindo o tal texto atribuído a bandeirantes, um diário do autor, mais dois posfácios – um deles escrito por Davi Arrigucci Jr.

Havia outro bom motivo para a viagem: Brian, um dos filhos de Fawcett – o outro morrera com o pai em meio aos índios. Brian tinha uma teoria própria a respeito das motivações do pai e do seu desaparecimento. Não acreditava que o coronel estivesse atrás de riquezas, como muitos pensavam na época – inclusive o sertanista Villas Boas, cujo carinho pelos índios o levaria a criar uma reserva na região do rio Xingu.

Num dos melhores momentos do livro – em história destrinchada no posfácio do jornalista Mauricio Stycer –, Callado fala sobre a atitude de um colega de imprensa que perdeu a paciência com um índio (embora não parecesse difícil se irritar com eles), levando Villas Boas a intervir na discussão antes que eles partissem para a briga, dizendo uma frase que ficaria famosa: "A morte de quinze Fawcetts me interessa menos do que a amizade desses índios".

Quando pisou em território mato-grossense para observar a tribo dos calapalos, Callado ainda não havia produzido sua obra literária, da qual faz parte Quarup (1967) e Madona de Cedro (1957). Um aspecto curioso na biografia do escritor carioca é que ele trabalhou como correspondente da BBC na Inglaterra e na França e, passados vários anos, voltou para o Brasil com gana de conhecer e se envolver com a cultura do seu país. Vem daí o interesse pelas comunidades indígenas e, por tabela, pelas aventuras do coronel Fawcett.

Sabendo que a ossada não era do explorador britânico, Callado se dedicou a escrever sobre a relação entre brancos e índios, escrevendo parágrafos contundentes sobre a maneira de ser dos nativos. Ele os compara a crianças, ingênuas e inocentes, mas que sabem ser malandras quando querem e que aprendem as malandragens com os "adultos".

Antes de viajar, Callado se preparou lendo livros e manteve um diário durante todo o percurso. Lera sobre Fawcett (que não o interessava tanto) e sobre os índios (pelos quais se interessava muito). As anotações foram incluídas na nova edição. É fascinante ver o ponto de partida do autor, com os esboços produzidos às pressas durante caminhadas ou no meio da selva, e depois conferir o resultado final.

Serviço: Esqueleto na Lagoa Verde, de Antonio Callado. Companhia das Letras, 160 págs., R$ 36.

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