
O irlandês Colm Tóibin é autor de O Mestre, romance em que especula sobre a vida amorosa de Henry James (1843-1916), escritor norte-americano de clássicos como A Volta do Parafuso e Retrato de uma Senhora.
Com a antologia Mães e Filhos, recém-publicada pela Companhia das Letras, a faceta de contista de Tóibin vem à tona. É curioso perceber que, embora esteja nos domínios das narrativas curtas, ele consegue criar histórias de fôlego com personagens complexos, como se fosse capaz de comprimir um romance em algumas dezenas de páginas.
"Uma Canção", por exemplo, consegue descrever a epopéia da viúva Nancy para criar os três filhos em quase 70 páginas. Depois de perder o marido, ela descobre que este deixou apenas dívidas e um negócio falido. A mercearia que havia sido de sua sogra não resiste à concorrência de uma grande rede que se instalou na cidadezinha.
Os contos são ambientados no interior da Irlanda. Nancy, por sua vez, quer ir embora do lugar onde as pessoas a olham com compaixão e onde o seu crédito foi para o espaço. Sua ambição é morar em Dublin, com "as longas avenidas com árvores dos dois lados e as muitas e muitas casas quase escondidas."
Para ela, na capital irlandesa, "ninguém cumprimentava ninguém com aquele misto de familiaridade e curiosidade dali, sempre que alguém botava o pé na porta para sair. Ninguém sabia sobre ninguém, ninguém se sentia no direito de se aproximar de alguém para conversar. Eram apenas pessoas comuns que viviam em casas".
Depois de um período difícil e orientada por um conhecido, Nancy resolve abrir, anexo ao mercado, uma lanchonete especializada em batatas fritas ou chip shop. Logo, o lugar vira um sucesso e ela começa a pagar suas dívidas. Porém, os problemas com o filho Gerard indisposto a estudar e sonhando em assumir o negócio da mãe apenas começam.
Rembrandt
No primeiro conto de Mães e Filhos, "O Uso da Razão", a mãe do protagonista mal aparece, apesar de dar um bocado de dor de cabeça ao filho. Este é um bandido que, meio a contragosto, decide roubar um museu. Entre as obras de arte que consegue levar consigo, está um Rembrandt. O criminoso tem um informante na polícia e é obrigado a lidar com compradores holandeses interessados em pinturas.
A mãe, neste caso, é um fardo. Sustentada pelo filho bandido, passa o tempo bebendo além da conta e dando com a língua nos dentes pelos pubs da região. É o contraponto à provedora simbolizada por Nancy. Além de se preocupar com a mãe alcoólatra e com um quadro de Rembrandt ainda sem comprador, o protagonista passeia por lembranças de juventude, quando foi parar em um reformatório administrado por padres e descobriu que eles sentiam prazer em sodomizar os estudantes.
Autobiográfico
A pedofilia aparece em mais um dos nove contos reunidos no livro. "Um Padre na Família" mostra como uma mãe reage à notícia de que o filho padre foi acusado de pedófilo. O próprio Tóibin foi vítima de abuso sexual quando criança, além de ter estudado em colégio de padres. Mesmo usando algumas de suas referências pessoais, ele diz que os contos não são autobiográficos.
Numa entrevista concedida à Agência Estado, o autor contou que foi criado por mulheres dominadoras. Na sua casa, os homens não faziam nada. Quem administrava o dinheiro e os problemas eram a mãe e as tias. Talvez venha daí sua disposição em retratar figuras maternas batalhadoras. Um pouco como a personagem principal de As Cinzas de Ângela, as memórias de Frank McCourt. Não por acaso, este também é irlandês e marcado profundamente pela relação com a mãe, que carregou a família nas costas e sobreviveu a um marido que bebia como se não houvesse amanhã.
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Serviço
Mães e Filhos, de Colm Tóibin. Companhia das Letras, 272 págs., R$ 48,50.



