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Literatura

Na música, a salvação

Pianista chinesa escreve livro autobiográfico e relata como a paixão pela música a afastou do regime de Mao Tsé-Tung

Zhung Xiao-Mei: pianista chinesa desafiou o regime de Mao Tsé-Tung e hoje é uma das virtuoses mais respeitadas | Divulgação
Zhung Xiao-Mei: pianista chinesa desafiou o regime de Mao Tsé-Tung e hoje é uma das virtuoses mais respeitadas (Foto: Divulgação)
Livro é relato de superação |

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Livro é relato de superação

Zhu Xiao-Mei teve a música como principal aliada durante toda a sua vida. Provida de mãos pequenas, deteve-se mais à rapidez dos movimentos (força de vontade) do que no alcance das teclas mais longínquas (destino). E essa metáfora poderia valer para toda a sua vida.

O Rio e Seu Segredo – A Pianista Que Desafiou Mao é um comovente relato de 258 páginas. Lançado pela editora Objetiva, o livro autobiográfico conta a trajetória da reconhecida pianista chinesa que sobreviveu à Revolução Cultural graças ao seu amor pela música e, em especial, pelo piano.

Zhu nasceu em 1949 em meio à musicistas e artistas. Nunca se esqueceu do primeiro piano que ganhou, aos três anos de idade. Inclusive dá voz a ele no final do livro, no momento em que o chama de "marido perfeito". Aos 6 já tocava nas rádios e na televisão de Pequim, para orgulho de sua mãe generosa e de seu pai, homem justo e humilde.

Tudo ia bem até que, em 1969, Mao Tsé-Tung (1893-1976) coloca em prática sua revolução. O ditador destitui instâncias políticas e afasta possíveis ameaças, como Lin Biao, seu sucessor natural. Suas práticas culturais, entre outras coisas, proibem qualquer acesso à cultura ocidental – um golpe para Zhu, que aos 20 anos já tocava com perfeição obras de Bach e Rachmaninoff, seus compositores favoritos. Tudo, agora, baseava-se no Livro Vermelho, um punhado de (in)citações do ditador chinês.

A pianista, no auge da juventude, cogita a possibilidade de abraçar a causa. É obrigada a interromper seus estudos e transferida para um campo de reeducação na fronteira com a Mongólia. Lá, passa cinco longos anos. Por todo o tempo, entretanto, nunca deixa de pensar no seu velho piano, que chega escondido anos depois. Sua mãe foi a culpada: mandou-lhe o instrumento em um caminhão de carvão, às escuras. Faltava um "ré", mas o essencial estava lá.

No centro de reeducação, as condições eram as piores possíveis. Zhu lutava contra o frio – usava estrume de vacas para se aquecer durante a noite – e contra as barbaridades do sistema criado por Mao. Todos os dias, havia uma "sessão de autocrítica", em que todos julgavam e apontavam os erros dos outros – amigos, principalmente. Sessões de espancamento e tentativas de suicídio eram comuns.

Zhu consegue, ao dizer que as músicas que tocava eram chinesas e exaltavam Mao, fazer um verdadeiro concerto em plena "escola". Ninguém reconheceu as peças de Tchaikovski, Dvorak e Rachmaninoff, para a felicidade da chinesa.

A Revolução Cultural durou dez anos (1966 a 1976), mas Zhu foi uma das poucas chinesas que resistiram ao regime. Em 1979, com a pequena abertura que se segue à visita do violonista norte-americano Isaac Stern, Zhu parte para os Estados Unidos. O choque cultural, à primeira vista, foi como um abismo intransponível. Para Zhu, a comida parecia demais; a liberdade era excessiva; as pessoas falavam muito. É lá, aos 32 anos, que compra a primeira boneca de sua vida.

Seu refúgio eram as obras de Bach. Em especial as "Variações Goldberg" que, curiosamente, abrem a porta à obra do pensador chinês Lao Tse, censurado pela China maoísta, e sempre citado pela autora.

Zhu trabalha em casas de família para pagar seus estudos de piano. Troca horas de aulas por trabalhos cotidianos, até o momento que a situação se inverte e começa a lecionar, mesmo que ainda enfrentando dificuldades com a língua inglesa.

A parte final do livro relata sua fixação em Paris, "eterno sonho", e o contato cada vez maior com personalidades e músicos renomados de toda a Europa.

Zhu Xiao-Mei torna-se, finalmente, uma respeitada pianista, que desafiou toda uma ideologia por acreditar na sua própria.

O Rio e Seu Segredo – A Pianista Que Desafiou Mao, é um testemunho emocionante de uma mulher esmagada pela revolução cultural chinesa e salva pela música.

Serviço:

O Rio e seu Segredo - A Pianista que Desafiou Mao. Editora Objetiva, 258 páginas. R$35,90.

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"Os que derem prova de melhor comportamento irão embora primeiro. A luta está aberta. A liberdade, nós o sentimos, tem este preço. Quando a existência foi reduzida a tarefas embrutecedoras, quando nenhuma consciência superior, cultural ou religiosa está presente para canalizar os instintos, ninguém encontra um meio de se defender que não seja agredindo"

Trecho do livro "O Rio e seu Segredo - A Pianista que Desafiou Mao".•••

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