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Navegando pela poesia marginal

Peça baseada na vida da carioca Ana Cristina Cesar retorna a Curitiba para três apresentações no Teatro da Caixa

Paulo e a filha, Ana, contracenam diante de videografismos em Um Navio...: obra completa de Ana Cristina Cesar “derrubaria o palco”, diz o diretor | Walter Carvalho/Divulgação
Paulo e a filha, Ana, contracenam diante de videografismos em Um Navio...: obra completa de Ana Cristina Cesar “derrubaria o palco”, diz o diretor (Foto: Walter Carvalho/Divulgação)
Ana Cristina, nos anos 70: musa da geração mimeógrafo |

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Ana Cristina, nos anos 70: musa da geração mimeógrafo

Não é sempre que um ator do calibre de Paulo José se apresenta em Curitiba. Ainda menos acompanhado em cena pela filha, a atriz Ana Kutner. Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar (confira o serviço completo do espetáculo), peça baseada na vida e obra da poetisa carioca de mesmo nome, que viveu entre l952 e l983 no Rio de Janeiro, retorna a Curitiba após integrar a Mostra 2010 do festival de teatro da capital paranaense.

O texto, de Maria Helena Kühner, escrito na década de 90, foi adaptado para incluir mais textos da artista, que só teve a obra completa publicada anos depois do suicídio, aos 30 anos. A poetisa é interpretada por Ana Kutner, que recita inúmeros trechos de poemas de Ana Cristina, transmitindo parte das inquietações que moveram a escritora.

As projeções de textos da autora ficam a cargo dos irmãos Rico e Renato Vilarouca, e compõem com o cenário limpo de Fernando Mello da Costa um conjunto que remete ao universo lúdico e imaginativo da poetisa. No figurino, Kika Lopes une tons de claro e escuro e o tema marinho para transmitir certa atemporalidade.

A dramaturgia final da peça é de Walter Daguerre, que apimentou a história com um tema caro a Paulo José e que certamente o influenciou na opção por esta montagem: o desentendimento do ator, então roteirista, com a poetisa, quando ambos trabalhavam na Rede Globo, no início dos anos 80.

Esse relacionamento, ainda que profissional, ganhou cores pessoais quando textos submetidos por Paulo ao programa Caso Verdade, baseado em histórias reais de telespectadores, foram definidos como "folhetinescos", "superficiais" e "simplórios" por Ana, que era analista de roteiros da rede. Chateado, Paulo José se afastou e, conforme contou à Gazeta do Povo (leia ao lado), só percebeu o valor da poesia da colega após a morte dela. "Então caiu a ficha", diz.

Vida de poeta

Filha de um sociólogo e de uma jornalista, conta-se que, aos seis ou sete anos de idade, Ana Cristina já ditava poemas para que a mãe os escrevesse. Após um período na Inglaterra, onde realizou sua dissertação de mestrado, entre 1979 e 1981, na Universidade de Essex, traduziu poemas de gigantes como T. S. Eliot, Ezra Pound, Emily Dickinson, Mallarmé, Dylan Thomas, Walt Whitman e Sylvia Plath. Seu tema de pesquisa de mestrado foi o conto "Bliss", de Katherine Mansfield.

Representante do que ficou conhecido como "poesia marginal" ou "geração mimeógrafo" – em alusão ao antigo equipamento copiador –, Ana também era, para amigos e admiradores, uma inspiração. A pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda, que estudou o grupo de artistas, escreveu que Ana "no meio dos poetas marginais era e se comportava como musa, um pouco distante de como devem ser as musas".

Suas obras publicadas antes da morte são Cenas de Abril(1979), Correspondência Completa (1979), Literatura Não É Documento (1980), Luvas de Pelica (1980), A Teus Pés (1982) e Inéditos e Dispersos (1982). Postumamente, saíram Escritos da Inglaterra (1988), Escritos no Rio (1993) e Correspondência Incompleta (1999).

Serviço:

Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar (confira o serviço completo do espetáculo). Teatro da Caixa (R. Conselheiro Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Direção de Paulo José. Com Paulo José e Ana Kutner. Dias 22 e 23, às 21 horas, e dia 24, às 19 horas. R$20 e R$10 (meia). Classificação indicativa: 14 anos. Sujeito a lotação.

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