
São Paulo - Primeiro dos três filmes de Mauro Bolognini com roteiro de Pier Paolo Pasolini, A Longa Noite de Loucuras (1959) dialoga com o terceiro, Um Dia de Enlouquecer, mais do que com segundo, O Belo Antônio, adaptado do romance de Vitaliano Brancati. La Notte Brava e La Giornata Balorda têm em comum a juventude dos personagens e a importância do dinheiro.
Os gigolôs e as prostitutas da Longa Noite fazem tudo por dinheiro, mas o último plano, que remete ao primeiro, fecha um ciclo em que a nota não vale nada e é lançada ao lixo. O dinheiro também é a meta do jovem que tenta comprar uma barraca na feira, mas o que é tudo para ele é nada para a burguesa que paga pelo sexo, no Dia de Enlouquecer.
Raggazzi di vita são personagens frequentes dos primeiros escritos de Pasolini e também dos primeiros filmes que realizou, no quadro de um neoneorrealismo, mais poético do que aquele celebrado por Roberto Rossellini e Vittorio De Sica no pós-guerra. Por isso mesmo, muitos críticos sempre supervalorizaram o aporte pasoliniano a Bolognini, reduzindo o cineasta ao artesão que teria transformado em imagens a prosa de Pasolini. O tratamento é desigual ao conferido ao roteiro que Pier Paolo também (co)escreveu para Federico Fellini. Embora próximo, o universo de As Noites de Cabíria tende a ser mais místico.
O filme que agora sai em DVD permite que se diga bem de um diretor (um autor?) que viveu à sombra de Pasolini como de Luchino Visconti. É verdade que as primeiras comédias de Bolognini são um tanto impessoais com exceção da admirável A Casa Intolerante , mas suas reconstituições históricas e adaptações de grandes romancistas (Brancati, Alberto Moravia, Italo Svevo, Vasco Pratolini) são exemplares. Os críticos que reprovam o esteticismo de Bolognini, o seu gosto de antiquário, esquecem-se de que a morbidez e o maneirismo, convertidos em estilo, não entravam à força nos filmes.
Em 1959, boa parte do interesse de A Longa Noite de Loucuras vinha do elenco que reunia os novos talentos da Itália e da França, Laurent Terzieff, Jean-Claude Brialy, Rossana Schiaffino, Elsa Martinelli, Antonella Lualdi. Elas rodam bolsinha nos becos romanos, eles as exploram, mas como nos suntuosos melodramas de época de Bolognini, os temas já são a impotência figurada dos homens (só em O Belo Antônio ela é real) e a mistificação das mulheres. Em seu livro de memórias, Le Ruisseau des Singes, Brialy lembra-se de Bolognini como se fosse um núncio apostólico e de Pasolini sempre cercado de garotos, nos lugares ermos em que filmavam.
Em Jovens Maridos e A Casa Intolerante, o diretor já roçara a linguagem popular que Pasolini colocou, com propriedade, nos diálogos de La Notte Brava, e essa é uma conquista importante para o realismo do filme. O episódio mais esquisito envolve a participação de Mylene Démongeot. Contemporânea de Brigitte Bardot e ofuscada por ela , a bela Mylene faz a criada na pele de madame, na visita à mansão que permite irromper, em clima dúbio, na miséria (social? moral?) de A Longa Noite, o futuro Bolognini viscontiano das crônicas sobre a decadência burguesa.



