
HQ
Dexter
Roteiro de Jeff Lindsay. Ilustrações de Dalibor Talajíc. Tradução de Guilherme Kroll Domingues. Editora Planeta, 120 págs.,R$ 39,90. Suspense.
Quando Dexter acabou no canal Showtime em 2013, a decepção dos fãs foi inevitável. O desfecho do programa, que tinha Michael C. Hall na pele de um assassino compulsivo com boas intenções, não fez justiça aos episódios das quatro primeiras temporadas. Por isso, o retorno do personagem em um encadernado de histórias em quadrinhos soa sempre bem-vinda. Ainda mais com roteiro da autora que criou o anti-herói na literatura, Jeff Lindsey.
Com desenhos de Dalibor Talajíc, que assinou personagens como Deadpool na editora Marvel, a trama retoma o serial killer em algum momento entre o terceiro e o quarto ano do seriado. Depois de participar de um reencontro de colegas do colegial ao lado da mulher Rita, Dexter revive uma antiga inimizade, que pode estar vinculada a uma série de mortes que tem ocorrido em Miami.
Por que ler? Além de revisitar um personagem carismático na televisão e na literatura, a graphic novel de Lindsey e Talajíc também tem trunfos visuais. O maior deles é mostrar a perspectiva distorcida do protagonista, que nos quadros coloridos finge ser alguém normal. Quando é dominado por seus violentos instintos, porém, seu mundo passa a ser povoado por fantasmas.
DVD
True Detective 1ª Temporada
(True Detective, EUA, 2014). Criada por Nic Pizzolato. Com Matthew McConaughey, Woody Harrelson e Michelle Monaghan. Warner. Três discos. 456 min. Classificação indicativa: 18 anos. Locação e venda. Preço médio: R$ 99,90. Policial.
Criada pelo novato Nic Pizzolato, True Detective segue uma tendência que vem se consolidando ao longo da última década: levar para a televisão grandes nomes da tela grande. Matthew McConaughey, vencedor do Oscar de melhor ator neste ano por seu desempenho em Clube de Compras Dallas, vive o papel de Rust Cohle, um policial atormentado por seu passado trágico, que mergulha de cabeça na investigação de assassinatos cometidos por um serial killer fanático religioso no estado da Louisiana, sul dos Estados Unidos.
Embora astuto e dono de uma inteligência dedutiva digna de um Sherlock Holmes, Cohle, por causa de seu comportamento errático, não tem uma boa reputação na polícia. Apenas recebe sinal verde para tocar o caso porque seu colega Martin Hart (Woody Harrelson, de O Povo contra Larry Flynt), com quem tem uma relação atribulada, aposta em seu talento, apesar da evidente incompatibilidade entre eles.
Por que assistir? Mais do que a trama em si, o que mais chama a atenção em True Detective é a atmosfera sombria e muito ambígua da história: os dois protagonistas, embora agentes da lei, são tudo menos heróis desprovidos de falhas. Muito pelo contrário. A narrativa, em flashback, se dá a partir da perspectiva de ambos os personagens, que prestam depoimentos, separadamente, a respeito das investigações, iniciadas em 1995. Já não trabalham mais juntos e deixaram de ter contato um com o outro há anos, por razões que se tornarão conhecidas ao longo da série, que deu a Cary Fukunaga ao Emmy de melhor direção.
Livro 1
Hotéis
Maximiliano Barrientos. Tradução de Joca Reiners Terron. Rocco, 128 págs. R$ 24. Romance.
Nas estradas poeirentas de cidades pobres da América do Sul, este romance de estrada é herdeiro da melhor ficção realista norte-americana. Há muito do texto viril de Raymond Carver, Cormac McCarthy ou Sam Shepard nesta história sobre um casal de ex-atores pornô que se apaixonaram enquanto contracenavam e hoje vagueiam sem rumo (e sem maiores explicações) com a filha pequena em um Chrysler Imperial negro que vai rodando por cidades perdidas até o fim que se anuncia trágico.
O livro é uma pequena joia que mostra que precisamos voltar nossos olhos leitores para a América do Sul. Verdade que a coleção Otra Lingua, da Rocco, da qual este livro faz parte, prova a cada mês.
Preste atenção: Com 35 anos, o autor é o principal nome de sua geração na literatura boliviana. Ele é um exímio criador de imagens, a partir de experiências diretas, concentradas em ações e sem afetações e literatices pseudopsicológicas. Uma literatura do concreto e da intimidade, em que a força tem mais peso que as ideias.
Livro 2
Perfis O Mundo dos Outros
Sergio Vilas-Boas. 3.ª edição revista e ampliada. Manole, 285 págs., R$ 59. Jornalismo.
Desvendar o extraordinário em pessoas aparentemente comuns ou superficialmente conhecidas é uma sacada do jornalismo que quase sempre agrada aos leitores. Porque há surpresa. Porque se trata de gente e, principalmente, de histórias. As narrativas biográficas podem até estar em desuso, seja devido ao pouco espaço nos jornais impressos ou da opção pela velocidade da informação ao invés do trabalho mais profundo, e, por vezes, até transformador. Mas este gênero, tão importante historicamente, continua a ser estudado e difundido.
Perfis O Mundo dos Outros, de Sergio-Vilas Boas, mostra e ensina. Vinte e dois personagens são perfilados pelo autor, doutor em narrativas biográficas pela USP e vencedor do prêmio Jabuti de 1998 com o livro Os Estrangeiros do Trem N. Ao final, há um ensaio inspirado sobre o gênero sua definição, implicâncias e atualidade.
Preste atenção: Entre os perfilados, estão Mara Salles, cozinheira de mão cheia; o ex-jogador Tostão "Médico no campo dos sonhos" , o escritor João Ubaldo Ribeiro, falecido recentemente, e Cristovão Tezza, em um perfil antigo, mas ainda relevante, intitulado "O Relojoeiro."
Livro 3
Instruções à Cortázar Homenagem de Cronópios, Famas e Esperanças
Vários autores. Coordenação de Carlyle Popp. Juruá Editora, 94 págs. R$ 29,90. Contos.
Em comemoração ao centenário de nascimento de Julio Cortázar, um dos mais originais escritores do século 20, a Juruá Editora, de Curitiba, mais conhecida por seu catálogo de Direito, lança este peculiar Instruções à Cortázar Homenagem de Cronópios, Famas e Esperanças. A coletânea de 18 autores, organizada por Carlyle Popp, é inspirada em Histórias de Cronópios e Famas, obra-chave do repertório potente de Cortázar, e especula, com ironia, estas coisas todas do céu e da terra, como a melhor forma de cortar cebolas, esquecer um amor e fritar ovos.
Por que ler? Como em toda coletânea, profusa em estilos, há momentos desnecessários e irregulares. Mas o livro, de design discreto e sem maiores ambições, vale pelas "instruções" da curitibana Giovanna Lima, de João Anzanello Carrascoza e do carioca-curitibano Otto Winck, além do belíssimo posfácio do "imortal" Antônio Torres, o que já não é pouca coisa. O texto de abertura de Popp, que toca no fla-flu argentino Cortázar x Borges, é oportuno para quem pretende se iniciar em um dos mundos mais desconcertantes e jazzísticos da literatura.



