
Assim como o samba, o futebol (e possivelmente a caipirinha), a capoeira talvez seja um dos símbolos culturais que melhor traduz o Brasil em sua essência.
É dança, é música, é esporte e, de quebra, tem a ver com ancestralidade e resistência. Mas, ao contrário do jogo de bola que fez a cabeça do brasileiro ou do ritmo que internacionalizou as mulatas cariocas, a capoeira sempre esteve meio à margem.
Os mestres, do Pelourinho ao Chuí, reclamam de falta de atenção e defendem a manifestação como algo legitimamente verde e amarelo.
No último dia 26 de novembro, uma notícia veio de Paris para chacoalhar os berimbaus: a roda de capoeira foi reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Na ocasião, a ministra interina da cultura, Ana Cristina Wanzeler, afirmou que o título é um "reconhecimento muito importante para a cultura brasileira."
Em termos de visibilidade, para que a capoeira seja ainda mais reconhecida em termos mundiais, é "ótimo", completou Juliano Martins Doberstein, historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/PR (Iphan). Ele foi um dos presentes na exibição do documentário Iê: Capoeira em Curitiba, na última quarta-feira, na Cinemateca. Com a presença de inúmeros mestres (numa beca só), o evento marcou a celebração do feito na cidade.
Em termos práticos, o estado agora assume o compromisso de dar apoio a essa manifestação. Não necessariamente financeiro, mas em termos de articulação com outros órgãos públicos para a difusão da roda de capoeira como expressão cultural. Para além dos louros, porém, há as demandas urgentes. E um certo pé atrás.
"A capoeira chegou aonde chegou pelas próprias pernas, pelos próprios méritos. O reconhecimento é bem-vindo, mas o que ele vai mudar? A capoeira não precisa de nada, ela está pronta. Quem precisa é o capoeirista", atesta Geraldo Xisto Gonçalves, o Mestre Kunta, representante do Centro de Estudos da Cultura Afro-Brasileira de São José dos Pinhais.
A chiadeira é devido a uma tendência moderna de achar que cultura é sinônimo de evento ou de efeméride. Para os interessados, não basta existir a roda de capoeira no dia 20 de Novembro (Consciência Negra) ou 13 de Maio (Abolição da Escravatura). "Aí, nas redes sociais, todo mundo bate palma. A roda sempre foi feita, independentemente de vontade política e de aceitação pública. O que falta são projetos para quem está no meio dela", afirma Kunta.
Orgulho e preconceito
Em Curitiba e região, o número de grupos de capoeiristas passa dos cem. Neste domingo, mais de 1,5 mil crianças e adolescentes irão se graduar no Sesi Boqueirão.
Os mestres são unânimes ao afirmar que a procura pela capoeira como esporte, atividade física ou até mesmo terapia, ainda não está concorrendo em preferência com o smartphone, embora tenha público. Mas o que faz a roda desandar, segundo o mestre, é o preconceito, individual ou institucionalizado.
"Ainda acham que a capoeira é coisa de negro. Ou, se for branco, é coisa de vagabundo", diz Kunta. "Grandes empresas também não têm interesse de nos patrocinar, já que a marca não irá circular nos grandes centros, muitas vezes, mas sim na periferia", completa o mestre, que na época da ditadura militar somou 20 passagens pela polícia. Todas "por capoeira".
Vereador Mestre Pop não quer levantar bandeira
A capoeira tem seu representante na Câmara Municipal de Curitiba. Ele atende por Mestre Pop, se diz "um negão desse tamanho", está em seu primeiro mandato e é filiado ao PSC. Adilson Alves Leandro, 46 anos, nasceu no interior de Minas Gerais e mora em Curitiba desde 1996. É agradecido. "Quando fui eleito, não foi para defender um segmento específico ou levantar bandeira. Foi para trabalhar por Curitiba e devolver à cidade o que ela me deu", diz Pop o apelido vem da infância, quando assistia ao desenho Bob Pai e Bob Filho, mas trocava o "b" pelo "p".
Mestre Pop diz que a capoeira o ajuda no ambiente "conturbado" da Câmara Municipal. "Você sabe que em todo segmento há pessoas boas e más", diz o vereador. "Mas quando chego nas escolas para dar aula de capoeira, derreto o gelo que construo aqui ."
Mestre Pop cita filmes que contribuíram para dar mais visibilidade à manifestação, como Esporte Sangrento (1993) "apesar do nome" e o nacional Besouro (2009).
Para o vereador, a desinformação é aliada do preconceito, que em sua opinião ainda existe. "Muitos acham que a capoeira é religiosa. Não é. Religioso é o ser humano que a pratica", corrige.
Na labuta na Câmara, uma ironia. Um dos projetos que pretende tocar é a criação da Semana da Capoeira em Curitiba. "É uma expressão muito grandiosa, precisava de uma semana inteira de comemoração", explica.
Entretanto, valorizar atos pontuais ao invés de ações mais profundas e duradouras é justamente o que o povo do berimbau diz que não quer.



