Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
história

Notícia de Paris faz soar os berimbaus

Reconhecimento da roda de capoeira como patrimônio cultural da humanidade agradou aos mestres, mas causou bafafá

Berimbaus na Praça Tiradentes: em Curitiba, há mais de cem grupos de capoeiristas que têm seu representante inclusive na Câmara Municipal | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Berimbaus na Praça Tiradentes: em Curitiba, há mais de cem grupos de capoeiristas que têm seu representante inclusive na Câmara Municipal (Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

Assim como o samba, o futebol (e possivelmente a caipirinha), a capoeira talvez seja um dos símbolos culturais que melhor traduz o Brasil em sua essência.

É dança, é música, é esporte e, de quebra, tem a ver com ancestralidade e resistência. Mas, ao contrário do jogo de bola que fez a cabeça do brasileiro ou do ritmo que internacionalizou as mulatas cariocas, a capoeira sempre esteve meio à margem.

Os mestres, do Pelourinho ao Chuí, reclamam de falta de atenção e defendem a manifestação como algo legitimamente verde e amarelo.

No último dia 26 de novembro, uma notícia veio de Paris para chacoalhar os berimbaus: a roda de capoeira foi reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade.

Na ocasião, a ministra interina da cultura, Ana Cristina Wanzeler, afirmou que o título é um "reconhecimento muito importante para a cultura brasileira."

Em termos de visibilidade, para que a capoeira seja ainda mais reconhecida em termos mundiais, é "ótimo", completou Juliano Martins Doberstein, historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/PR (Iphan). Ele foi um dos presentes na exibição do documentário Iê: Capoeira em Curitiba, na última quarta-feira, na Cinemateca. Com a presença de inúmeros mestres (numa beca só), o evento marcou a celebração do feito na cidade.

Em termos práticos, o estado agora assume o compromisso de dar apoio a essa manifestação. Não necessariamente financeiro, mas em termos de articulação com outros órgãos públicos para a difusão da roda de capoeira como expressão cultural. Para além dos louros, porém, há as demandas urgentes. E um certo pé atrás.

"A capoeira chegou aonde chegou pelas próprias pernas, pelos próprios méritos. O reconhecimento é bem-vindo, mas o que ele vai mudar? A capoeira não precisa de nada, ela está pronta. Quem precisa é o capoeirista", atesta Geraldo Xisto Gonçalves, o Mestre Kunta, representante do Centro de Estudos da Cultura Afro-Brasileira de São José dos Pinhais.

A chiadeira é devido a uma tendência moderna de achar que cultura é sinônimo de evento ou de efeméride. Para os interessados, não basta existir a roda de capoeira no dia 20 de Novembro (Consciência Negra) ou 13 de Maio (Abolição da Escravatura). "Aí, nas redes sociais, todo mundo bate palma. A roda sempre foi feita, independentemente de vontade política e de aceitação pública. O que falta são projetos para quem está no meio dela", afirma Kunta.

Orgulho e preconceito

Em Curitiba e região, o número de grupos de capoeiristas passa dos cem. Neste domingo, mais de 1,5 mil crianças e adolescentes irão se graduar no Sesi Boqueirão.

Os mestres são unânimes ao afirmar que a procura pela capoeira como esporte, atividade física ou até mesmo terapia, ainda não está concorrendo em preferência com o smartphone, embora tenha público. Mas o que faz a roda desandar, segundo o mestre, é o preconceito, individual ou institucionalizado.

"Ainda acham que a capoeira ‘é coisa de negro’. Ou, se for branco, é coisa de vagabundo", diz Kunta. "Grandes empresas também não têm interesse de nos patrocinar, já que a marca não irá circular nos grandes centros, muitas vezes, mas sim na periferia", completa o mestre, que na época da ditadura militar somou 20 passagens pela polícia. Todas "por capoeira".

Vereador Mestre Pop não quer levantar bandeira

A capoeira tem seu representante na Câmara Municipal de Curitiba. Ele atende por Mestre Pop, se diz "um negão desse tamanho", está em seu primeiro mandato e é filiado ao PSC. Adilson Alves Leandro, 46 anos, nasceu no interior de Minas Gerais e mora em Curitiba desde 1996. É agradecido. "Quando fui eleito, não foi para defender um segmento específico ou levantar bandeira. Foi para trabalhar por Curitiba e devolver à cidade o que ela me deu", diz Pop – o apelido vem da infância, quando assistia ao desenho Bob Pai e Bob Filho, mas trocava o "b" pelo "p".

Mestre Pop diz que a capoeira o ajuda no ambiente "conturbado" da Câmara Municipal. "Você sabe que em todo segmento há pessoas boas e más", diz o vereador. "Mas quando chego nas escolas para dar aula de capoeira, derreto o gelo que construo aqui ."

Mestre Pop cita filmes que contribuíram para dar mais visibilidade à manifestação, como Esporte Sangrento (1993) – "apesar do nome"— e o nacional Besouro (2009).

Para o vereador, a desinformação é aliada do preconceito, que em sua opinião ainda existe. "Muitos acham que a capoeira é religiosa. Não é. Religioso é o ser humano que a pratica", corrige.

Na labuta na Câmara, uma ironia. Um dos projetos que pretende tocar é a criação da Semana da Capoeira em Curitiba. "É uma expressão muito grandiosa, precisava de uma semana inteira de comemoração", explica.

Entretanto, valorizar atos pontuais ao invés de ações mais profundas e duradouras é justamente o que o povo do berimbau diz que não quer.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.