
As primeiras páginas do livro Arte Brasileira na Pinacoteca do Estado de São Paulo enfileiram imagens que revelam o museu de arte mais antigo da capital paulista sob ângulos pouco explorados. Em uma, a câmera flagra sorrateira o ponto de vista de uma estátua exposta em uma sala com inúmeros retratos. Em outra, estátuas femininas têm gestos que se assemelham ao de um homem observando-as de braços cruzados.
São fotografias em perfeita sintonia com o conjunto de 16 ensaios, reunidos no livro pela organizadora Taisa Palhares, que lançam olhares renovados a algumasdas obras mais significativas do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, do século 19 à década de 1940. Os textos da compilação são uma iniciativa louvável do museu, realizada em 2003, que convidou um grupo de especialistas para realizar análises públicas com a presença das próprias obras, divididas nos módulos "Um Olhar Sobre o Século 19" e "Modernidade e Modernismos".
"Nosso intuito era fazer com que o público pensasse ou se aproximasse da arte brasileira a partir das obras, num movimento que vai do particular ao universal, do objeto à história", escreve Palhares, no texto de introdução da publicação realizada pela Pinacoteca em parceria com a Imprensa Oficial e a Cosac Naify.
Leitura
Além da introdução e dos 14 textos de estudiosos fartamente ilustrados, o livro traz dois artigos iniciais que são uma espécie de aquecimento para o leitor. O primeiro, de Carlos Lemos, conta a história do edifício do museu, projetado por Ramos de Azevedo no início do século 20, para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios, e restaurado por Paulo Mendes da Costa entre 1994 e 1998. Já Roberto Teixeira Leite introduz o leitor na Academia e na pintura brasileira no século 19.
Os autores analisam as obras sob perspectivas curiosas. Maria Cecília França Lourenço, por exemplo, toma como ponto de partida a obra "Leitura", do paulista Almeida Júnior, pintada em 1892, para discutir a presença do livro e da leitura nas telas. Conhecido por suas pinturas regionalistas, o artista nascido em Itu é o alvo mais frequente dos estudos que aparecem no livro (além do feito por Maria Cecília, há outros dois), graças às obras em que o "caipira", típico personagem brasileiro, é posto em primeiro plano.
"No início deste século, deparamos com uma situação de revisão de muitos dos pontos de vista fundamentais da história da arte tradicional. Talvez seja este o momento oportuno de contribuirmos para o alargamento de cânones preestabelecidos", escreve Palhares, justificando estas novas proposições.
Paisagem urbana
Dentre as obras emblemáticas que foram analisadas, estão a escultura "Tocadora de Guitarra", do modernista Victor Brecheret, que apresenta características desenvolvidas pelo escultor no período em viveu na França, entre 1928-29 e 1930-31, que ecoariam em sua obra "Monumento às Bandeiras" (1920-53), um dos marcos visuais de São Paulo. A capital paulista, aliás, é revelada por Aracy Amaral como cenário moderno recorrente na obra de Tarsila do Amaral tomando como exemplo principal a tela "São Paulo" (1924). "A metrópole é vista, portanto, nos anos 1920, como o polo da vida moderna, e toda a vida vertiginosa, iluminação, cartazes, vitrines, diversões, velocidade, é encarada como a fonte inspiradora dos artistas do tempo", escreve a autora.
A edição é uma espécie de livro-referência que inclui, ainda, biografias atualizadas de cada artista e suas principais referências bibliográficas, além de um breve histórico sobre o percurso das obras dentro da instituição.
Serviço: Arte Brasileira na Pinacoteca do Estado de São Paulo, de Taisa Palhares (org.). Pinacoteca/Imprensa Oficial/CosacNaify, 240 págs., R$ 60.





