Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Música

O acordeão está em todas

Criado há seis anos, Grupo Fole Harmônico valoriza sonoridade do instrumento que “invadiu” Curitiba nos últimos dias

Integrantes do Grupo Fole Harmônico ensaiam no Clube Concórdia | Pedro Serapio/Gazeta do Povo
Integrantes do Grupo Fole Harmônico ensaiam no Clube Concórdia (Foto: Pedro Serapio/Gazeta do Povo)

Semana retrasada Curitiba se viu diferente. Na terça, dia 23, estava mais para um Rio de Janeiro da década de 1960 ou para uma São Paulo dos dias atuais, já que foi atingida pelos choros e composições modernas do acordeonista Toninho Ferragutti. Já no fim de semana que se seguiu, uma invasão fez com que o Teatro da Caixa fosse um palco para um grande encontro entre nordestinos e gaúchos. Lá estavam os baiões e xotes proporcionados pelas sanfonas de Renato Borghetti, Luciano Maia, Alessandro Kramer, Oswaldinho do Acordeão e Dominguinhos.

A invasão de acordeões foi sucesso de público e de crítica. E estas informações confirmam que, mais do que o possível encantamento devido à excentricidade do instrumento, facilmente en­­con­­trado nos bailes gaúchos ou nos forrós nordestinos, o acordeão tem, sim, seus apreciadores e instrumentistas. Mais do que isso, um grupo inteiro de acordeonistas.

Criado em 2004 com o objetivo de resgatar o espaço do acordeão dentro do histórico da música popular brasileira, o Fole Harmônico, formado por 11 acordeonistas, é a prova de que o instrumento surgido no início do século 19 continua ressoando.

"O grupo é muito eclético. Temos integrantes de 18 e de 78 anos. Então as pessoas surgem com diversas vertentes. Cada um veio com a sua história", explica Ro­­dolfo Senff Neto, de 67 anos. O grupo é formado por profissionais (como o professor Waldir Teixeira, coordenador do grupo) e amadores da música. Os 11 ensaiam semanalmente durante as noites de terça-feira e se apresentam cerca de oito vezes ao ano.

"A ideia é pensar no acordeão como instrumento acadêmico e completo, que pode estar inserido em qualquer atividade musical", aponta o instrumentista, reforçando o caráter flexível da sanfona – já que proporciona um baixo harmônico e um teclado melódico.

A história de Senff com o instrumento talvez seja a mesma de muitos paranaenses. O acordeão era o instrumento oficial de festas da década de 1950. A gaita, lembra o curitibano, soava até a madrugada, entoando boleros e tangos.

Era igualmente normal o acordeão na serenata, que invadia madrugadas e janelas alheias. "Se havia uma garota batuta, era serenata na certa. As famílias abriam a casa para nos receber", relembra o músico. No repertório de outrora, "Perfídia", sucesso nas vozes do Trio Irakitan; e "Por Quem Sonha Ana Maria", de Juca Chaves.

Rodolfo Neto acompanhou a apresentação de Toninho Ferragutti. Para o curitibano, o paulista é o acordeonista brasileiro mais completo, já que "toca tudo, como se fosse uma orquestra de um homem só". Ferragutti já esteve em Curitiba durante a Oficina de Música, há quatro anos. E é pensando nisso que o músico pretende continuar a divulgação do instrumento.

"Resgatamos partituras e músicas do Sivuca (sanfoneiro paraibano morto em 2006) e queremos divulgar isso com uma oficina temática. É uma nova dimensão ao acordeão", explica Senff.

Se, na década de 1960, Luiz Gon­­zaga perdeu para João Gilberto – leia-se a sanfona foi eclipsada pelo violão –, o momento parece propício para uma nova retomada do instrumento, seja em apresentações-solo, concertos de grupos ou inserção do acordeão em outros gêneros musicais.

Da chanson française à música eletrônica

Edith de Camargo ouvia o acordeão na família em noites de Natal. Na Suíça, onde nasceu, seu pai em­­balava a abertura de presentes com valsas e polkas. Mais tarde, os filmes de Federico Fellini, adornados pela trilha de Nino Rota, confirmaram o interesse da musicista pelo instrumento.

Vocalista e acordeonista do grupo curitibano Wandula, Edith re­­ve­la outros aspectos do acordeão.

"Meu repertório no instrumento é basicamente de música europeia. É a chanson, são as músicas da Edith Piaf. Até fiz um curso com o Ferragutti, mas o chorinho é algo mais pesado para mim, não tão natural", diz Edith, que mora no Brasil há 15 anos.

Mas Edith crê que a nostalgia associada ao timbre único do instrumento aproxima as vertentes musicais. "O chorinho tem sua base na polka, um ritmo muito divulgado na Suíça no qual o acordeão tem um grande papel", aponta.

E quem ousa conferir ares mais modernos ao acordeão é Marina Camargo. Também integrante do grupo Fole Harmônico, a musicista toca em paralelo o projeto Fole Baixo Lounge, no qual insere a melodia do acordeão a programações eletrônicas. "Tem sido muito interessante", diz Marina. O projeto, dividido com o músico Marcelo Pereira, existe desde 2009 e lembra o que fazem os grupos Gotan Project e Bajofondo, pioneiros no estilo.

Serviço:

Na internet: www.myspace.com/folebaixo

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.