Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Romance

O amor aos sessenta anos

Milamor, novo romance da escritora e psicanalista carioca Livia Garcia-Roza, revela o mundo sob o olhar de uma mulher que chega à velhice

Além de Milamor, Livia Garcia-Roza é autora de romances premiados como Quarto de Menina, Cine Odeon, Solo Feminino e Meu Marido | Divulgação
Além de Milamor, Livia Garcia-Roza é autora de romances premiados como Quarto de Menina, Cine Odeon, Solo Feminino e Meu Marido (Foto: Divulgação)

"Mi amor!". Assim, a mãe de origens hispânicas tratava a filha Dolores. Ao ouvi-la, a criança vizinha, Maria, achava que a menina chamava Milamor. O nome virou título do mais recente romance da escritora e psicanalista carioca Livia Garcia-Roza, que usou como matéria-prima sua infância, particularmente as férias passadas na companhia da prima Judith – a quem o livro é dedicado.

É curioso – e mesmo significativo – que um livro inspirado em recordações da infância tenha como protagonista uma senhora, a Maria do primeiro parágrafo, prestes a completar 60 anos. Sozinha no apartamento em que mora com a filha, Maria Inês, pouco disponível para conversas, ela foge do tédio narrando, em tom de bate-papo, momentos de seu dia-a-dia e lembranças do passado. Mas as memórias da juventude e de seus dois casamentos, às quais Maria se agarra para amainar a solidão, tornam-se pálidas quando ela subitamente se apaixona novamente pelo recém-viúvo Alencar.

A escrita de Livia Garcia-Roza é exemplar. A escolha das palavras e a construção das frases, enxutas e sempre muito pessoais, levam o leitor a quase visualizar uma senhora de modos discretos, mas ainda plena de energia. O tema do envelhecimento feminino, aparentemente pouco atraente em um tempo em que se deseja estender a juventude à eternidade, é tratado sem véu ou preconceitos.

Já no parágrafo inicial, a personagem se auto-define corajosamente: "Apesar das dietas rigorosas, do constante esforço para ir à hidroginástica, e do longo percurso diário das caminhadas, meu corpo faliu. Nada mais dá jeito nele. Foi-se, à medida que as primaveras se cumpriam. Agora só o reencontro na fotografia. O único consolo é aquela moça que fui eu. Mas a minha alma permanece intocável. Uma orquídea de estufa, viçosa e bela. Trago-a tinindo, no mais absoluto frescor...".

Inesperadamente, ela passa a agir como uma jovem apaixonada. Prepara-se, um tanto perturbada por se descobrir ainda com "intensa volúpia", para um possível encontro amoroso indo ao dentista, ao ginecologista, comprando uma lingerie, ao mesmo tempo em que se preocupa com o casamento conturbado do filho e a solteirice de Maria Inês.

Maria tem inúmeras amigas, a contragosto da filha, que as chama de "aquelas loucas", com quais conversa freqüentemente. Ao criá-las, Livia oferece ao leitor uma espécie de mosaico com diferentes modos de encarar a velhice. Estela, de 80 anos, é louca por bingos e obcecada por doenças. Alice, depois de muito tempo de casada, descobre-se apaixonada pelo marido. Lucila é a amiga perfeita, bem-casada e com filhos encaminhados. Ana Luisa viaja a Paris para chorar à beira do Sena a homossexualidade do filho. Por fim, há Regina, a amiga cinqüentona e divertida, que bebe além da medida.

Ao mesmo tempo em que anseia viver mais uma paixão, Maria reflete sobre suas relações anteriores. Amou loucamente Paulo, seu primeiro marido, por quem foi abandonada. Casou-se novamente com Haroldo, um homem mais velho, com quem podia conversar e viver momentos serenos. Reflete, assim, sobre o afeto pelos filhos, pelos pais, pelas amigas e pelos homens com a intensidade e a completude que só os anos podem trazer.

* * * * *

Serviço

Milamor, de Livia Garcia-Roza. Record, 208 págs., R$ 33.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.