
O aproveitamento da luz natural é "algo" que Oscar Niemeyer sempre levou em consideração ao elaborar os seus projetos arquitetônicos. A tese, de doutorado, foi defendida por Paulo Marcos Mottos Barnabé, na Universidade de São Paulo (USP), e recentemente transformada no livro A Poética da Luz Natural na Obra de Oscar Niemeyer.
Barnabé observou mais de cem realizações de Niemeyer no Brasil. O "canteiro de obras" de Brasília revelou-se rico para o estudo. A Catedral, então, é um exemplo mais do que relevante. "Os vitrais da Catedral foram uma ideia de mestre, pois, conforme muda a posição do sol, a iluminação se modifica, inclusive do lado de fora", explica. O pesquisador também descobriu que Niemeyer recupera a história da arquitetura em seus projetos. "A cúpula da Catedral de Brasília é uma releitura de cúpulas de igrejas renascentistas", afirma.
O Museu Oscar Niemeyer (MON), de Curitiba, é outra obra que, nas palavras de Barnabé, comprova a "genialidade de Niemeyer". A começar pelo "volume horizontal", que proporciona uma espécie de "sombra protetora". "Aquela grande sombra é uma espécie de varanda", opina. O espaço foi construído, em 1971, com a finalidade de vir a ser uma escola, mas foi adaptado para abrigar uma secretaria estadual, até que em 2002 transformou-se no atual museu.
A Capela da Pampulha (MG) é, na avaliação de Barnabé, outra obra que merece atenção. "Essa Capela revela tanto a recuperação da história da arquitetura, por dialogar com as igrejas coloniais, como também comprova que Niemeyer soube valorizar nuances da luz natural", diz. Nas igrejas, no mundo todo, as portas são posicionadas a Leste, que é por onde entra a luz, o que simbolicamente representa a renovação do espírito. O altar, por sua vez, fica a Oeste, com o propósito de sugerir tanto a morte como a "escuridão" de cada humano. "Essas questões estão presentes na Capela da Pampulha, onde Niemeyer explorou as possibilidades, até poéticas, da luminosidade", comenta.
Barnabé esteve algumas vezes frente à frente com Niemeyer e chegou a uma conclusão: o arquiteto não gosta de "abrir o jogo". "Niemeyer, assim como todo gênio, não esclarece as fontes, nem explica muito a respeito de seu modus operandi", conta. O pesquisador observa que, se Niemeyer não fala a respeito do aproveitamento da luz, há uma "falsa explicação" sobre o uso das curvas. "Ele (Niemeyer) diz que se inspira nas mulheres para fazer as curvas de suas obras, mas na verdade essas curvas têm origem no estilo barroco", interpreta.
A explicação, de Barnabé, para o fato de Niemeyer nunca ter lecionado é que o "arquiteto genial" não se sentiria à vontade para oferecer fórmulas. "Cada obra é única. Não há, portanto, receitas a seguir", completa. Barnabé também comenta que Niemeyer projetou, seguramente, bem mais do que as duas mil obras que são atribuídas a ele. "Quando Niemeyer não gosta do resultado, ele retira o nome do projeto", revela.
O pesquisador costuma compartilhar esse conhecimento, fruto da imersão na obra de Niemeyer, nas aulas que ministra há 25 anos no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina (Uel). "Procuro abrir os olhos dos estudantes para algumas possibilidades, como o uso da luz. Mas, no caso de Niemeyer, não se tratam de projetos: ele é um artista que produziu obras de arte", finaliza.
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Serviço
A Poética da Luz Natural na Obra de Oscar Niemeyer. Paulo Marcos Mottos Barnabé. Eduel. 192 págs. R$ 60.




