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Literatura

O cangaço segundo Graciliano Ramos

O banditismo sertanejo dos anos 1930 é dissecado pela prosa arguta do autor de Vidas Secas

  • Roberto Muggiati, especial para a Gazeta do Povo
Auge da barbárie: exibição das doze cabeças cortadas de Lampião, Maria Bonita e o resto do bando de cangaceiros em 1938, pelas ruas de Maceió, é narrada por Ricardo Ramos, filho de Graciliano |
Auge da barbárie: exibição das doze cabeças cortadas de Lampião, Maria Bonita e o resto do bando de cangaceiros em 1938, pelas ruas de Maceió, é narrada por Ricardo Ramos, filho de Graciliano
 
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O cangaço segundo Graciliano Ramos

“Lampião nasceu há muitos anos em todos os estados do Nordeste. Não falo, está claro, no indivíduo Lampião, que não poderia nascer em muitos lugares e é pouco interessante. Pela descrição publicada vemos perfeitamente que o salteador cafuzo é um herói de arribação bastante chinfrim. Zarolho, corcunda, chamboqueiro, dá impressão má. Refiro-me ao lampionismo, e nas linhas que se seguem é conveniente que o leitor veja alusões a um homem só.”

Esse texto, publicado em 1931 na revista Novidade, de Maceió, faz parte do livro Cangaços (Record), de Graciliano Ramos, organizado pelos “gracilianólogos” Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Reunindo textos que falam dos bandoleiros do sertão nordestino na época crucial dessa coletânea (de 1931 a 1941), o livro traz a visão indignada do escritor – mais humanista do que comunista – diante dos desmandos e desigualdades de um quadro social corrupto e cruel. Ele mesmo sofreu na carne a injustiça: a partir de março de 1936, aos 43 anos, foi encarcerado durante dez meses pela polícia política de Getúlio Vargas. A tenacidade do sertanejo em sua resistência à opressão aparece repetidas vezes na frase “apanhar do governo não é desfeita”, que se aplicaria ao próprio Graça. Ele explica o cangaço:

“O que transformou Lampião em besta-fera foi a necessidade de viver. Enquanto possuía um bocado de farinha e rapadura, trabalhou. Mas quando viu o alastrado e em redor dos bebedouros secos o gado mastigando ossos, quando já não havia no mato raiz de imbu ou caroço de mucunã, pôs o chapéu de couro, o patuá com orações da cabra preta, tomou o rifle e ganhou a capoeira. Lá está como bicho do mato montado.”

Ainda em 1931, a Novidade publicou uma entrevista com Lampião, detalhando “como o célebre cangaceiro, o herói legendário do sertão nordestino, encara certas coisas brasileiras: os direitos de propriedade, o progresso, a justiça, a família, o sertão, os coronéis, o cangaceirismo e a sua própria vida.” Logo de saída, a revista deixa claro: “Na impossibilidade de obtermos um encontro com o notável salteador, recorremos a um truque: um dos nossos redatores, antigo sócio de centros esotéricos, deitou-se, acendeu um cigarro, fechou os olhos e conseguiu, por via telepática, a seguinte entrevista.” Por aproximação estilística, Ieda Lebensztayn atribui a entrevista imaginária a Graciliano. Durante sete anos, ela pesquisou a história da revista Novidade — que teve 24 números, de 11 de abril a 26 de setembro de 1931— para sua tese de doutorado na USP. Outros escritores de talento colaboravam na revista, que era feita nos fundos de uma livraria de Maceió: o poeta Jorge Lima, o romancista José Lins do Rego, o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda e o antropólogo Manuel Diegues Jr. (Quase todos migrariam depois para o Rio.) Mas, a verve do texto, a referência irônica ao esoterismo, a zombaria do bacharelismo e, apontam Lebensztayn “a agudez em relação à miséria absoluta e ao caráter falacioso da palavra escrita; a preceptiva poética de que é preciso conhecer o sertão para se falar dele” — tudo isso é inequivocamente de Graciliano.

Bandoleiros

O livro inclui os dois capítulos do romance Vidas Secas que falam especificamente do cangaço. Eram “dois cangaços”, mencionam os organizadores: o do passado, de caráter social, e o do presente, de motivação econômica, alinhando as datas de alguns de seus chefes: Jesuíno Brilhante (1855-1879), Antônio Silvino (1875-1944), Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1898-1938), e Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco (1907-1940). Destes, apenas Silvino não foi assassinado, mas preso de 1914 até 1937. Graciliano o visitou na cadeia e fez seu perfil para O Jornal, do Rio, em 1938: “Na catinga imensa, perseguido, queimado pela seca, Silvino teve sempre os modos de um grande senhor, muitas vezes mostrou-se generoso e caprichou em aparecer como uma espécie de cavaleiro andante, protetor dos pobres e das moças desencaminhadas.”

Para o Sistema, o cangaço merecia punição exemplar. Já em 1935 os volantes assombravam a opinião pública com a foto do corpo do cangaceiro Cirilo de Engrácia, comparsa de Lampião, pregado de pé numa tábua e cercado pelos homens que o mataram. A cabeça cortada teve de ser colada ao corpo para a pose de “álbum de família”. Cangaços traz a foto, com o comentário que Graciliano fez no romance Angústia: “Pensei em Cirilo de Engrácia, visto dias antes em fotografia — um cangaceiro morto, amarrado a uma árvore. Parecia vivo e era medonho. O que tinha de morto eram os pés, suspensos, com os dedos quase tocando o chão.” (Qualquer semelhança com o corpo de Vladimir Herzog pendurado nas grades da sua cela é mera coincidência...)

Mas o auge da barbárie é quando são exibidas as doze cabeças cortadas de Lampião, Maria Bonita e o resto do bando. As cenas grotescas de 1938 são evocadas pela memória de uma criança, Ricardo Ramos, filho de Graciliano, numa das epígrafes do livro: “Eu ouvia, fascinado. Passara a meninice acalentado pelas estripulias dos cangaceiros, da polícia volante, duas pestes que nos assolavam. E contei de uma noite, após a ceia, em que atraído pelos foguetes saí à calçada e vi os caminhões, as cabeças cortadas espetadas em estacas, de Lampião, Maria Bonita e mais dez outros, os soldados empunhando archotes, gritando vitoriosos, um cortejo macabro pelas ruas de Maceió. Sonhos assombrados, semanas de pesadelo.”

No artigo “Cabeças”, publicado no Diário de Notícias do Rio de Janeiro em 2 de outubro de 1938, Graciliano investe com seu humor cáustico: “Por outro lado, existem pessoas demasiado sensíveis que estremecem vendo a fotografia de cabeças fora dos corpos. Essas pessoas necessitam uma explicação. Cortar cabeças nem sempre é uma barbaridade. Cortá-las no interior da África, e sem discurso, é barbaridade, naturalmente; mas na Europa, a machado e com discurso, não é barbaridade. O discurso nos aproxima da Alemanha. Claro que ainda precisamos andar um pouco para chegar lá, mas vamos progredindo, não somos bárbaros, graças a Deus.”

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