
Dona Neuza Maria se via em uma espécie de ritual quando seu filho saía de casa e pegava a estrada para fazer shows fora de Curitiba. Debruçada na janela do quinto andar do Edifício Paraná, no bairro Juvevê, ela olhava para baixo. O garoto de 22 anos, então, esticava a cabeça para trás e acenava com a mão em tom de despedida. Foi sempre assim até aquele sábado, 10 de abril de 2004. "Olhei até a van sumir de vista, e nada. Foi a primeira vez em que ele não me deu tchau", diz Neuza. O motorista da condução também era outro. Quem dirigia era Elias, e não o bom e velho "Covas", conhecido de outras viagens parecia mesmo haver algo de estranho. A sequência de acasos encontrou um fim trágico quando o grupo já havia voltado da Lapa, naquele dia 11, um domingo de Páscoa nublado: às 7 da manhã, um fusca furou o sinal e atingiu a van, que capotou e bateu em um poste de concreto maciço na esquina das ruas Rocha Pombo e Nicolau Maeder. O acidente tiraria a vida do filho de Dona Neuza, Ibiran Pigatto Ribeiro, o Bira, vocalista da Extromodos. Deixaria paraplégico o músico André Becker, baixista do grupo. Acabaria repentinamente com a carreira de uma das mais promissoras bandas da cidade. E faria com que uma considerável legião de fãs ficasse sem chão e sem rumo por muito tempo.
Na Curitiba de dez anos atrás, em meio a uma cena capitaneada por Relespública, Sexofone, Faichecleres, Black Maria, Syd Vinicius e Ipsis Litteris, a Extromodos virou a sensação das noites de sexta-feira no Empório São Francisco. Praticando um rock enérgico que flertava com o grunge e o ska, Bira (voz e guitarra), André Becker (baixo) e Alvaro Neves Jr. (bateria), power trio que se consolidou após a saída do guitarrista Bruno Sguissardi cofundador do grupo ao lado de Bira faziam com que filas enormes se formassem no entorno do bar. Pois todos queriam ver e ouvir aquela banda, cujo vocalista tinha o estranho cacoete de cantar olhando para cima. Ou "para o céu", como acredita Dona Neuza. A voz potente e extensa de Bira, que ora emulava um Eddie Vedder, ora floreava frases como algum bom cantor brega dos anos 1970, era o que mais chamava a atenção de quem ouvia Extromodos pela primeira vez.
Música no pátio
A Extromodos começou no Edifício Paraná, onde moravam Bruno e Becker; e também Marcelinho e Marcelo Bezerra, baixista e baterista da banda Anacrônica, respectivamente. Bira ainda viva em Foz do Iguaçu. Mas era só festa quando se juntava com aquela piazada. "Estava tocando uma música do Jorge Ben", diz Bruno, "e aí o Bira pegou um brinquedo e começou a batucar com um ritmo impressionante e a cantar de um jeito que nunca vi", lembra. Uma banda chamada Forgotten Realms precisava de um vocalista. Bira, então com 11 anos, foi ao ensaio, cantou e todos ficaram boquiabertos ao ouvi-lo. Bingo.
Ibiran gostava de subir em árvores, andar de chinelo de dedos e de cantar "Galopeira" a toda voz. Um dos responsáveis por colocá-lo no caminho do rock foi Matheus Duarte, produtor e vocalista da banda Match foi em 1998 que Bira se encontrou com Led Zeppelin e Stone Temple Pilots. Anos depois, surgiu o Red Hot Chili Peppers cover, projeto que durou até o ano 2000. Daí em diante, a Extromodos o nome da banda foi inventado em uma sessão regada a "doses de gengibirra" se tornaria uma obsessão.
O pulo do gato foi a gravação do disco Pra Ficar, no final de 2003. Era costume ouvir "Língua dos Cachorros" na então 91 FM, a "rádio rock". Ou pensar sobre a letra de "Hoje É Meu Dia", como ainda fazem os amigos de banda e de vida. "Se Deus é meu/ Corto os males/ Nenhum choro/ Quero 20 ou 10 pulmões pro que vai rolar." Bira morreu devido a diversas perfurações nos pulmões. André Becker ficou 15 dias em coma e formou a banda Trivolve, meses depois, porque, em um sonho, ouviu do amigo que "tem coisa pra fazer". Bruno chora quando lembra que a música "Um ConTato" foi feita como um pedido de desculpas para aquela amizade que tinha dado um tempo. E Alvaro tem um anseio: ir para uma praia, sozinho, colocar Pra Ficar em um volume considerável e pensar no que passou ao lado do amigo, que foi embora assim, sem dizer tchau.
Empresário do Rei estava de olho nos meninos
Na onda do sucesso de Pra Ficar, a Extromodos assinou um contrato com a Fun Music, espécie de selo da época. Os shows no Empório transbordavam. E a expectativa era sobre quando a banda iria "acontecer" fora de Curitiba. Era questão de tempo.
Naquele 2004, o empresário Rodrigo Vinicius era produtor musical e editor do site Curitiba.org, um dos pioneiros em venda de ingressos on-line. Uma notícia caiu no seu colo: a banda norte-americana Living Colour faria show no antigo Moinho São Roque. E precisava de alguém para abrir os trabalhos. Rodrigo conhecia o Extromodos e levou um disco dos curitibanos para o todo poderoso Manoel Poladian, o então "empresário das estrelas", dono da conta de quatro de cada cinco grandes artistas do país inclusive a de Roberto Carlos. Poladian ouviu. E soltou essa. "Se fizerem ao vivo o que estou ouvindo no CD, avisa que eles podem escolher um número. É o que eles vão ganhar depois que contratá-los".
"O Bira ficou entusiasmadaço", lembra Rodrigo, para quem a união da banda era o segredo de tudo. "Trabalhei no ramo de shows por 15 anos. Nunca vi energia igual em uma banda que estava começando. E eles tinham isso porque eram muito amigos".
A Living Colour tocou para 3,8 mil pessoas e fez menção à Extromodos, dizendo que "sabiam que faltava alguém ali". Não houve banda de abertura. Mr. Poladian não quis.
Obstinado, Bira era do tipo anti-Yoko Ono
Alvaro Neves Junior conheceu Bira nos corredores da Universidade Tuiuti, onde cursavam Publicidade e Propaganda, por meio de Bruno, seu colega de turma. Os três se encontraram em uma tarde para ouvir Beatles. "Ficamos lá, falando bobagens de adolescente". A Extromodos já existia naquele ano 2000, mas o antigo baterista não era unanimidade. Alvaro, "baixinho, gordinho e sem expressão", avisou que se virava com as baquetas. Ninguém o levou a sério até o ensaio no dia seguinte. "Entra para a banda que demito o outro cara agora!", ordenou Bira. "Senti que deveríamos tocar para o resto da vida", lembrou Alvaro.
Reflexivo, o baterista revela outras facetas do amigo. Bira era um sujeito obstinado com o que fazia e, por isso mesmo, difícil. "Quando você transforma sua obstinação em vontade, não atrapalha. Mas o Bira era teimoso, discutíamos muito."
O rapaz de cabelos compridos e olhar distante também fazia parte da turma "anti-Yoko Ono". "Ele não deixava a gente amar ninguém a não ser ele e a música. Parecia que ele sabia que o tempo estava acabando."
Outra peripécia do destino: Alvaro não podia ir ao fatídico show na Lapa porque a data coincidia com a formatura de sua namorada. Tremeu ao contar ao amigo. E surpreendeu-se logo depois. "Vai lá, cara. É importante para ela", disse Bira, tão imprevisível quanto cativante.







